VIAJAR
É PRECISO
José
Carlos Morais*
Semana
passada recebi um telefonema de Geralda, pedindo-me que escrevesse esta
coluna. Durante estes 25 anos que estou na cadeira fiz muitas viagens,
tanto no Brasil como no exterior, e fiquei pensando qual delas relatar.
As experiências iniciais são sempre as mais marcantes. É a história do
primeiro sutiã... O pânico de não encontrar a porta larga, no momento
certo, é inesquecível. O esporte ajudou-me muito. Nas viagens em grupo,
a troca de experiências era inevitável e a ajuda mútua muito enriquecedora.
Aos poucos fui aprendendo a viajar e até hoje me surpreendo com alguns
absurdos. Decidi, então, destacar o que considero primordial em uma viagem.
Você deve ser prático e previdente. Da mesma maneira que você faz uma
revisão no seu carro ao viajar, cheque a sua cadeira de rodas. Limpe os
eixos, veja se o quick-release está funcionando direito, coloque óleo
nos rolamentos, veja se o assento e o encosto não vão te deixar na mão
durante a viagem. Agora os pneus. De que tipo? Na minha opinião, deve-se
viajar com os pneus maciços (os quatro). Não é raro furá-los. Sem dúvida,
fica mais desconfortável, e como roda-se muito em viagem, a decisão final
será sua. Se você optar por pneus infláveis, não esqueça de levar uma
câmara sobressalente e/ou um kit de reparo (compra-se em qualquer loja
de bicicleta). Encha-os bem; coloque pelo menos 60 libras. É muito duro
tocar cadeira com pneu vazio. Se você não tem habilidade para trocar pneus,
acho melhor viajar com pneus maciços.
Os pneus da frente são mais complicados de trocar. Estes, a meu ver, deverão
ser sempre maciços. Você sabe quanto mede a sua cadeira, no comprimento
e na largura? É bom saber, pois você não tem idéia de que portas encontrará
pelo caminho. O ideal é viajar com cadeira de quadro curto, pois além
de facilitar as manobras, ajusta-se a qualquer mesa de restaurante. Uma
boa largura é de menos de 60cm, quando medida de aro a aro. Obviamente,
que isto dependerá do seu tamanho. Uma alternativa interessante é a cadeira
que possui, como opção, rodas pequenas atrás. Assim ao retirar as rodas
grandes, sua cadeira passará em qualquer porta. Caso você esteja sozinho,
poderá impulsionar a cadeira pelas paredes. Algumas portas de banheiro
tem vão de 60cm, mas, com a porta, o vão livre cai para, aproximadamente
54cm. Não se acanhe em pedir para retirar a porta. Outra alternativa,
se você estiver acompanhado, e retirar uma das rodas para passar pela
porta. Dentro do banheiro você a colocará novamente.
Agora a principal regra (pode ser mais difícil para as mulheres): viajar
com pouca roupa. Não deixe de comprar um anteparo para carregar mala (acessório
da Quickie - custa em torno de US$ 40,00) que vai afixado aos pedais.
Você deve concentrar sua bagagem em duas malas. Uma que você carregará
nos pés da cadeira (no tal anteparo) e uma mochila que colocará nas costas
da cadeira. O seu colo deverá estar livre. É inimaginável carregar alguma
coisa no colo, em viagem, por mais de uma quadra. Os elásticos, pelo menos
três, são bem-vindos. Quando a mala estiver no hotel, você poderá carregar
as compras, em um saco plástico da própria loja e prendê-lo com os elásticos
em sua cintura e apoiá-lo no anteparo.
Outro "problema" é o banho. A maior tralha de viagem é a conhecida cadeira
de banho. Na grande maioria das vezes ela é desnecessária. Hoje com a
enorme proliferação das cadeiras de plástico (qualquer hotel tem uma),
a solução ficou muito mais fácil. Não esqueça de levar uma almofada simples,
que você possa molhá-la, pois as vezes pode ser útil, principalmente se
você tiver que ir para o chão ou para uma banheira.
Cuidado com as viagens longas de avião. Não esqueça de tirar a pressão
da bunda, de vez em quando, e/ou ficar meio de lado. Como você passará
a noite sentado, provavelmente ficará com as pernas inchadas. A meia elástica
é uma boa solução. Se estiver viajando na primeira fila, e isto é freqüente
com chumbado, pode colocar os pés para cima, pois além de evitar o inchaço
tira também a pressão da bunda. Outra questão é o xixi a bordo. Para os
homens é uma questão mais fácil, pois pode-se esvaziar o coletor ou mesmo
passar uma sonda na própria poltrona. Enquanto não houver uma regularização
de se carregar uma cadeira estreita a bordo, uma alternativa é levar a
sua a bordo. Dependendo do tipo de aeronave isto é possível, e se você
tiver sentado na primeira fila (classe econômica), é também possível chegar
até a porta do banheiro e de lá fazer transferência para o vaso. Na mochila
de mão, leve as suas coisas básicas. Chumbado é cheio de coisas básicas:
sondas, xilocaína, tubo para derramar o xixi, bandaids, pomadas, camisinhas,
coletores (mais de um), fraldas, remédios, etc. Quase todos tomam, pelo
menos, um remédio. Lembre-se, que no exterior, você não compra remédio
controlado sem receita. Nestes estão incluídos, por exemplo, antibióticos,
analgésicos mais fortes e tranqüilizantes. Faça a sua pequena farmácia.
Falando em saúde, não esqueça do seguro. As coisas básicas viajarão sempre
com você em sua mochila de mão. Não é raro malas e cadeiras se extraviarem
por este mundo afora. Elas voltam, mas pelo menos você está garantido
com as suas coisinhas. Espero que vocês aproveitem estas primeiras dicas.
Se tiverem perguntas, escrevam. Até mais e boa viagem.
Fonte: Este texto, publicado aqui sob a autorização do autor, foi
extraído da coluna CHUMBADICAS, do jornal SuperAção, do Centro de Vida
Independente do Rio de Janeiro.
*O autor é Vice-presidente do CVI-RJ e professor da Faculdade de Medicina
da UFRJ.
|