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ANA RITA DE PAULA GANHA PRÊMIO USP DE DIREITOS HUMANOS
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Nós, do Centro de Vida Independente Araci Nallin e do Núcleo de Integração de Deficientes, temos a grande satisfação de informar que nossa amiga e companheira ANA RITA DE PAULA, foi agraciada com o SEGUNDO PRÊMIO USP DE DIREITOS HUMANOS - 2001, categoria Prêmio Individual, como um justo reconhecimento por sua incansável e ininterrupta luta, desde 1980, em defesa dos direitos e da dignidade das pessoas com deficiência, no Brasil.
Ana Rita de Paula nasceu na cidade de São Paulo, em 26 de janeiro de 1962. Já na infância, foi diagnosticada como portadora de uma rara deficiência congênita progressiva. Deixou de andar por volta dos oito anos, quando descobriu, na cadeira de rodas, um instrumento importante para sua independência. Por opção de seus pais, que eram muito jovens quando ela nasceu, toda sua educação acadêmica foi feita em escolas comuns, na rede regular pública de ensino, onde teve a oportunidade, desde pequena, de conviver espontaneamente com as demais crianças. Essa vivência foi fundamental para tornar Ana Rita defensora ferrenha e divulgadora incansável da educação inclusiva, muito antes de essa postura angariar adeptos em escala nacional a ponto de tornar-se uma política pública defendida pelo Ministério da Educação. Sempre quis ser psicóloga e realizou o seu sonho quando ingressou no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, integrando o primeiro grupo de pessoas deficientes da USP em luta por melhores condições de acessibilidade na Universidade. Lá, fez a graduação, o mestrado e o doutorado, sempre desenvolvendo temas ligados à deficiência, contribuindo decisivamente para lançar luz sobre questões marcadas pelo tabu, como a sexualidade de mulheres com deficiência, ou pelo descaso, como a aflitiva condição das pessoas deficientes internadas em instituições totais, tema inspirado e calcado em sua atuação concreta, como consultora da Casa de Davi, de São Paulo, e do Centro de Reabilitação das Obras Sociais da Irmã Dulce, na Bahia, para desinstitucionalizar pessoas deficientes atendidas por essas entidades. Foi por ocasião do vestibular, no final de 1979, na USP e PUC, que Ana Rita teve seu primeiro contato com outras pessoas deficientes. A partir desse momento, liderou um movimento que aglutinou deficientes e não deficientes para a criação do NID-Núcleo de Integração de Deficientes, uma organização cujo objetivo é desenvolver atividades para a conscientização da sociedade sobre os direitos civis e humanos dos portadores de deficiência e trabalhar para que esses direitos sejam respeitados. E a marca do NID sempre foi o bom humor, a inteligência e a capacidade de ver e viver além do próprio tempo, de resto, não por acaso, as características mais marcantes de Ana Rita. Desde o primeiro momento e até hoje, nesses 21 anos de militância ininterrupta, Ana Rita sempre consagrou e continua dedicando o melhor de si. Foram incontáveis reuniões, inumeráveis dias e noites devotados a escrever documentos e engendrar estratégias para garantir que a voz das pessoas deficientes fosse ouvida. Ana Rita foi presença marcante durante o 1o. Encontro Nacional de Entidades e Pessoas Deficientes, que ocorreu em Brasília, em 1980. Este evento reuniu mais de 500 portadores de deficiência de todo o Brasil, dando origem à Coalizão Nacional de Pessoas Deficientes que culminou na fundação da ONEDEF-Organização Nacional de Entidades de Deficientes Físicos, da FENEIS-Federação Nacional de Entidades e Instituições de Surdos e da Federação Nacional de Cegos, existentes até os dias atuais. Em 1981, instituído pela ONU como o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, Ana Rita, tendo como inspiração o movimento de Firmeza e não Violência, organizou o Encontro de Adolfo Perez Esquivel, ganhador do prêmio Nobel da Paz, com as entidades de pessoas deficientes de São Paulo. Durante toda a década de 80, Ana Rita liderou o NID em sua missão de conscientizar a sociedade, tendo participado de inúmeros eventos e proferido incontáveis palestras sobre os direitos das pessoas deficientes na Capital e no Interior do Estado, levando a luta pela dignidade das pessoas deficientes aos locais mais distantes, trabalhando com comunidades de base, associações comunitárias, associações religiosas e diversos partidos políticos. Além disso, Ana Rita teve participação destacada na criação do Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa Deficiente (1984) e do Conselho Municipal da Pessoa Deficiente (1986) A partir de então, desenvolveu uma série de atividades junto aos governos municipais, estaduais e federal para garantir os direitos dos cidadãos portadores de deficiência. Atualmente, Ana Rita também faz parte do Conselho Consultivo do Centro de Vida Independente Araci Nallin, de São Paulo. Sua liderança refletiu-se também no campo profissional, em conjunto com Araci Nallin, Ana Rita organizou, em 1984, o Seminário sobre Reabilitação e Integração Social da Pessoa Deficiente, promovido pelo NID e realizado pelo jornal Folha de S. Paulo. O evento é considerado um marco na discussão sobre a reabilitação das pessoas com deficiência, pois contou com a participação do então secretário estadual da Saúde, João Yunes, e deu origem ao primeiro programa de atenção à saúde da pessoa deficiente, na rede pública do estado de São Paulo. Ana Rita coordenou esse programa de 1984 a 1991. Desde então, atuou em várias instâncias, órgãos públicos e organizações não governamentais, desenvolvendo inúmeros projetos voltados a este segmento da população. Ana Rita tem atuado como consultora do Ministério da Saúde; como professora convidada da Universidade de São Paulo; como assessora no Programa Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência, que envolvia todas as secretarias do Estado, sob a coordenação do Fundo Social de Solidariedade do Governo do Estado de São Paulo, de 1992 a 1994 . Na SORRI-Brasil, como consultora, desde 1995, participou ativamente do processo de crescimento e amadurecimento da entidade, na qual concebeu e implantou inúmeros projetos, tais como a Entre Amigos Rede de Informações sobre Deficiências (www.entreamigos.com.br) e o Projeto de Inserção de Crianças Deficientes em Creche, envolvendo 725 creches do município de São Paulo. Na sua vida acadêmica realizou pesquisas e elaborou publicações que subsidiaram substancialmente programas e projetos governamentais e não governamentais. Imbuída do mais genuíno espírito público, Ana Rita em detrimento do tempo que poderia dedicar à publicação de textos assinados sempre colocou em primeiro plano o desenvolvimento anônimo de documentos técnicos e textos orientadores de políticas públicas da área social. Desse modo, redigiu e/ou participou da elaboração de inúmeras publicações fundamentais para as pessoas com deficiência, escrevendo desde cartilhas, para o MEC, sobre inclusão de crianças com deficiência na escola, até documentos para o Ministério da Justiça sobre o direito das pessoas deficientes ao trabalho, passando por documentos norteadores sobre atenção à saúde, no Sistema Único de Saúde, no Ministério da Saúde. Preocupada em garantir resultados concretos que pudessem beneficiar o mais rapidamente possível a população necessitada, Ana Rita, ao longo de sua vida acadêmica e profissional, sempre privilegiou a pesquisa-ação. Assim desenvolveu trabalhos sobre uma ampla gama de temas, tais como a pesquisa sobre as condições de acesso para deficientes físicos a locais de lazer na cidade de São Paulo, realizada pelo NID em 1981, e publicada no Guia Quatro Rodas, pela Editora Abril, de 1982 a 1988; sobre acesso aos locais de votação por eleitores com deficiência física, realizada pelo NID, em 1982; sobre Caracterização das Deficiências Produzidas por Acidentes de Trânsito, realizada pelo Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, em 1993; e a pesquisa A situação no Estado de São Paulo sobre atenção às pessoas portadoras de deficiência e ações de prevenção, realizada pelo FUSSESP e Fundação Seade, em 1992 e 1993. Para
todos aqueles que têm o privilégio de conhecer e conviver
com Ana Rita de Paula, a indicação de seu nome não
é nenhuma surpresa. Muito ao contrário, vê-la recebendo
esse prêmio será mais uma confirmação do reconhecimento
por ser um exemplo de profissional de competência inquestionável,
de liderança social irrepreensível, de temperamento doce
e compassivo e de comportamento ético, qualidades que, de resto,
emanam de sua força, generosidade e coragem para sacrificar o conforto
pessoal em favor da causa das pessoas com deficiência. |