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Quando
o contato entre o objeto, a arquitetura e os usuários apresenta
um ponto de atrito, então o projetista cometeu um erro. Pelo
contrário, se as pessoas em contato com o meio em que se desenvolvem
vivenciam uma maior segurança, confiança, conforto,
ou simplesmente se sentem mais felizes, então o projetista
teria êxito em sua incumbência.Arquiteto Henry Dreyfuss,
1955
SER AUTÔNOMO E TER INDEPENDÊNCIA
A conquista da autonomia e da independência é uma das
características da cidadania. Parte desse processo tem relação
direta com o bem-estar do indivíduo no meio em que ele vive.
A maioria dos ambientes construídos, ou não, apresenta
barreiras visíveis e invisíveis. Constituem-se barreiras
visíveis todos os impedimentos concretos, entendidos como a
falta de acessibilidade dos espaços. As invisíveis compõem
a forma como as pessoas são vistas pela sociedade, na maior
parte das vezes representada pelas suas deficiência e não
pelas suas potencialidades.
A eliminação de barreiras visíveis poderá
vir a contribuir para a diminuição das barreiras invisíveis.
Assim sendo, arquitetos, projetistas e designers devem rever a forma
de conceber os espaços, os objetos, de modo que eles possam
oferecer mais conforto, segurança e eficácia.
A acessibilidade deve estar presente nas edificações,
no meio urbano, nos transportes e nas suas mútuas interações,
conforme exigência constitucional.
O objetivo da acessibilidade é permitir um ganho de autonomia
e de mobilidade a uma gama maior de pessoas, até mesmo àquelas
que tenham reduzida a sua mobilidade ou dificuldade em se comunicar,
para que usufruam dos espaços com mais segurança, confiança,
comodidade.
Agindo dessa forma, obtém-se ambientes que atendam às
propostas do design universal, sem, entretanto, custar mais.
O projeto que for concebido adequado às condições
de acessibilidade sofrerá um acréscimo de 1% do valor
da obra, e, por outro lado, se precisar ser adequado depois de construído
esse valor poderá alcançar 25%. (National Comission
on Architectural Barriers to Rehabilitation of the Handicapped, 1968)
DESENHO
UNIVERSAL
O designer universal propõe que os espaços sejam projetados
de forma a atender ampla gama da população, considerando
as variações de tamanho, sexo, peso, ou diferentes habilidades
ou limitações que as pessoas possam ter.
Esse conceito preconiza que uma cidade deve ser acessível a
qualquer pessoa desde o seu nascimento até sua velhice, ou
seja, as cidades devem ser acessíveis a todos.
Esses espaços devem permitir várias maneiras de serem
usados ou explorados, e devem estar providos de elementos construídos
únicos ajustáveis, ou múltiplos-complementares,
de forma que o conjunto esteja adequado a algum tipo de necessidade
ou característica do usuário (Marcelo Pinto Guimarães).
O caminho traçado por esses elementos construídos definirá
por si só uma rota acessível, não importando
qual seja o desenho desta, cada um a traçará da forma
que lhe convier.
Outro princípio pretende fazer com que as pessoas despendam
o mínimo possível de energia, atingindo um conforto
ao vivenciar os ambientes.
Esse conforto pode ser medido através da relação
do indivíduo com o ambiente em que ele vive. Quanto menor for
o grau de dependência das pessoas para usufruir dos espaços,
maior será o seu conforto.
A funcionalidade do espaço edificado permite a compensação
das limitações, pois transforma elementos materiais
em natural prolongamento do corpo, como instrumentos ainda mais fortes
e precisos do que os olhos, pernas e mãos (Marcelo Pinto Guimarães).
Existem escalas diferentes dos ambientes, as quais abrangem desde
os macro até os microambientes. A distinção entre
eles se apresenta muito vaga.
MACRO E MICROAMBIENTE
Muitos pesquisadores e designers consideram que o macroambiente está
numa escala arquitetônica, envolvendo relações
espaciais, forma da edificação, sua estética,
as condições locais e a interação desse
com a comunidade, enquanto que o microambiente é caracterizado
por uma escala pessoal individual. O espaço imediato que rodeia
o indivíduo, em seu local de trabalho, em sua casa, é
a chave do design centrado no usuário.
Criar um microambiente para o idoso não significa apenas diminuir
o estresse, minimizar o efeito das perdas funcionais, ou compensar
as incapacidades, mas criar, de uma forma que aumente a efetividade
do usuário, aumentando sua autoconfiança e, portanto,
mantendo sua auto-estima. (Arthur Schwartz)
MACROAMBIENTES ACESSÍVEIS
Um macroambiente acessível significa principalmente uma malha
viária sem obstáculos, uma rede de transportes públicos
que permita a qualquer pessoa, mesmo com limitações
físicas, sensoriais, mentais ou funcionais, usá-la.
Tal acessibilidade dar-se-á por meio de uma organização
clara e sistemática dos diferentes fluxos de circulação.
Esse conjunto do macroambiente deve ser de fácil conservação,
manutenção e limpeza, além de possuir um desenho
que dificulte ações de vandalismo.
Para melhor integrar o homem ao entorno arquitetônico e ao transporte,
é preciso garantir a segurança nos trajetos. Assim,
construir estruturas transparentes, evitando zonas escondidas, e realocar
móveis nos espaços promovem uma circulação
mais fácil e segura das pessoas.
Para reduzir o desgaste físico, é necessário
encurtar os trajetos percorridos pelos indivíduos, definindo
vagas para veículos, sinalizando-as adequadamente e definindo-as
em locais próximos dos edifícios, por exemplo. Uma sinalização
clara e acessível a todos colabora para a interação
do homem no espaço que ele vivencia e deve ser complementada
com um sistema de informação.
O equilíbrio estético-funcional necessita de soluções
integradas e padronizadas, destacando-se uma especial atenção
ao desenho e à localização do mobiliário
urbano.A fim de alcançar o objetivo de tornar a cidade acessível
a todos, é indispensável empreender algumas ações
como: facilitar o acesso aos transportes públicos, adaptar
os veículos com equipamentos (plataformas elevatórias,
por exemplo), de forma a anular os desníveis e vãos.
No tocante ao transporte individual, é preciso criar vagas
especiais para as pessoas portadoras de deficiência e zona de
embarque/desembarque, livres de obstáculos e adequar a sinalização
de orientação da cidade, voltada para o usuário.
MICROAMBIENTE DE TRABALHO
Microambiente constitui-se no espaço imediato que rodeia o
indivíduo. Planejar esse ambiente significa preocupar-se com
as interações espaciais, que consistem, por um lado,
em observar o mobiliário, a iluminação e a ventilação
e, por outro, analisar a capacidade funcional do usuário.
O resultado da compatibilização desses aspectos forma
o quadro de necessidades de cada indivíduo. Considerando o
conceito do design universal obtêm-se desse resultado espaços
funcionais, confortáveis, cômodos e acessíveis
a todos.
É possível observar que essa preocupação
já está presente nos escritórios do futuro.
O ambiente de trabalho moderno deve ter todos os instrumentos necessários
ao dia-a-dia, dispostos de maneira equilibrada para que o usuário
não perca tempo e paciência, deslocando-se excessivamente
(Revista Exame, jun./jul. 97).
Além disso, já foi desenvolvida por fabricantes europeus
cadeiras com design que permite regulagem variável para o assento
e também para o apoio das costas. Os móveis possuem
recursos mecânicos ou elétricos que permitem adequá-los
às exigências do trabalho tanto em termos de altura quando
de inclinação. Podendo, o móvel, ficar reto ou
inclinado na altura desejada para que a pessoa trabalhe em pé
ou sentada (Revista Exame, jun./jul. 97).
A escolha das cores dos móveis, e até mesmo dos computadores,
aparece como uma tendência forte, o que permite concluir que
a preocupação em adequar os espaços de trabalho
ao seu usuário é crescente.
Com essas modificações incorporadas, menos mudanças
serão requeridas para garantir a acessibilidade das pessoas
com necessidades especiais. Na verdade, essas modificações
dividem-se entre adequação das edificações
e de objetos, ou dos produtos acessíveis.
Cada deficiência exige adequações variadas para
suas diferentes necessidades. Alguns exemplos da variada gama de modificações
que devem ser feitas nos ambientes para torná-los acessíveis
a mais pessoas são indicados a seguir.
Para os deficientes visuais, muitas vezes, basta substituir as lâmpadas
por outras mais potentes ou simplesmente acrescentar mais uma, ou
então colocar uma cortina para dosar a claridade, diminuindo
o ofuscamento.Para um trajeto seguro dessas pessoas, garantir as condições
de conservação dos pisos, evitar a deposição
de objetos como caixas, fios e vasos de plantas pelo chão,
e, quando houver mudanças de nível, marcar o piso com
uma faixa branca ou amarela.
Nas escadas e rampas, a instalação de corrimão
é imprescindível para servir de apoio e guiar pessoas
com dificuldades de visão.
Quanto aos deficientes auditivos, ao indicar rotas de fuga, dotá-las
de dispositivos luminosos. Reduzir os ruídos é fundamental
para evitar que provoquem confusão em quem tem a capacidade
de audição reduzida. O uso de carpetes e cortinas pode
atenuar os ruídos.
O uso de símbolos ou cores, na comunicação visual,
pode facilitar bastante o trabalho da pessoa com deficiência
mental.
E aos deficientes físicos é necessário garantir
o acesso em nível, desde a entrada do prédio até
a mesa de trabalho. Para superar os desníveis, o espaço
deve dispor de rampas, elevadores ou equipamentos como plataformas
elevatórias. Lembrar da adequação dos sanitários,
cujas medidas devem possibilitar o uso com conforto e segurança
de um indivíduo em cadeira de rodas.
PRODUTOS ACESSÍVEIS
Uma
série de modificações que podem ser feitas, a
baixo custo, nos produtos, deve aumentar significativamente a acessibilidade
e a utilidade para indivíduos com dificuldades funcionais.
Incorporando essas modificações de design, desde o desenho
inicial do produto-padrão, para que possa ser mais acessível
ao consumidor, e tornando-se um produto com acessibilidade direta.
A inclusão dessas características de design pode servir
de benefício substancial à sociedade como um todo, na
medida em que elas capacitam os indivíduos com deficiência
a levarem vidas mais independentes e produtivas.
Os produtos para pessoas com deficiência, por outro lado, podem
beneficiar outros usuários sem deficiência ou impedimentos,
reduzindo a fadiga, aumentando a velocidade e diminuindo o número
de erros, além de proporcionar tempo de aprendizado acelerado
(o uso de mouse, como exemplo). Hoje, já existe software que
atende ao comando de voz e até fala com o usuário, por
meio de sintetizador de voz.
Às vezes, não é possível introduzir a
acessibilidade direta no produto-padrão, por não ser
prático, por tornar o produto desajeitado, por encarecê-lo
demais ou até porque algumas alternativas são incompatíveis.
Nesses casos, pode ser mais interessante fazer com que essas alternativas
estejam disponíveis como opções-padrão,
ou acessórios com um custo extra, e que passam a ser item de
pedido especial para a fábrica. É importante que sejam
listadas e descritas em um manual.
Por exemplo, os botões do aparelho de um ar condicionado, na
forma em que se apresentam, são difíceis de serem discerníveis
pelo tato. Portanto, o manuseio desse aparelho pode ser um problema
para uma pessoa com dificuldade visual, O ideal seria que o painel
de controles contivesse a opção de ser com botões
com relevo, ou algum tipo de identificação tátil,
disponível mediante solicitação.
A importância de adequar os espaços a todas as pessoas
vem sendo gradativamente absorvida pelos responsáveis por criar
os espaços, objetos ou produtos.
Esse conjunto de ações faz parte de um processo, que
é visto como um caminho sem volta. Espera-se que este texto
possa contribuir para agilizar esta trajetória.
*Sobre o texto: Publicado no documento sobre o Primeiro Seminário
Nacional "A Pessoa Portadora de Deficiência no Mundo do
Trabalho", CORDE, nov97.
**Sobre a autora: Arquiteta e urbanista, especialista em projetos
de acessibilidade, Coordenadora de projetos de Acessibilidade, na
Fundação Prefeito Faria Lima - CEPAM, Coordenadora da
Comissão da Revisão da NBR 9050, do Comitê Brasileiro
de Acessibilidade - CB40 da ABNT, Membro da Comissão de Acessibilidade
do Conselho Estadual de Atenção à Pessoa Portadora
de Deficiência, Consultora da Coordenadoria Nacional para Integração
da pessoa Portadora de Deficiência - CORDE, Membro da Sociedade
Brasileira de Geriatria e Gerontologia - SBGG/SP
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ACCESSIBLE.
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products to increase their accessibility to people with disabilities
or who are aging. Preliminary/Working Draft Compilado por Gregg C.
Vanderheiden e Katherine R. Vanderheiden Madison: University of Wisconsin,
Trace R&D. Center of Waisman Center and Dept. of Industrial Engineering,
1991 83p.
KONCELIK, Joseph A Product and Funiture Design for the Cheonicolly
Impaired Elderly In: Housing environments for frail older persons
- Product and Furniture Design for the Impaired ?. 19??, p.373 - 398.
JUNCÁ UBIERNA, José Antonio La accesibilidad
del entorno urbano um reto paro uma mejor movilidad de todos. Salvador,
1994. Trab. Apres. No II Encontro Ibero-Americano de Ingenieria Civil
y Construccion, FIADICC, "Ingenieria Civil y desarollo Urbano".
25-27 abr. 1994, Salvador - Bahia - Brasil.
GUIMARÃES, Marcelo Pinto. A graduação
da Acessibilidade versus a Norma NBR 9050 - 1994. Uma análise
de conteúdo. Belo Horizonte: Centro de Vida Independente Belo
Horizonte, CVI. BH, 1995.
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