Ambientes Acessíveis

Adriana Romeiro de Almeida Prado**

Quando o contato entre o objeto, a arquitetura e os usuários apresenta um ponto de atrito, então o projetista cometeu um erro. Pelo contrário, se as pessoas em contato com o meio em que se desenvolvem vivenciam uma maior segurança, confiança, conforto, ou simplesmente se sentem mais felizes, então o projetista teria êxito em sua incumbência.Arquiteto Henry Dreyfuss, 1955


SER AUTÔNOMO E TER INDEPENDÊNCIA


A conquista da autonomia e da independência é uma das características da cidadania. Parte desse processo tem relação direta com o bem-estar do indivíduo no meio em que ele vive.
A maioria dos ambientes construídos, ou não, apresenta barreiras visíveis e invisíveis. Constituem-se barreiras visíveis todos os impedimentos concretos, entendidos como a falta de acessibilidade dos espaços. As invisíveis compõem a forma como as pessoas são vistas pela sociedade, na maior parte das vezes representada pelas suas deficiência e não pelas suas potencialidades.
A eliminação de barreiras visíveis poderá vir a contribuir para a diminuição das barreiras invisíveis.
Assim sendo, arquitetos, projetistas e designers devem rever a forma de conceber os espaços, os objetos, de modo que eles possam oferecer mais conforto, segurança e eficácia.
A acessibilidade deve estar presente nas edificações, no meio urbano, nos transportes e nas suas mútuas interações, conforme exigência constitucional.
O objetivo da acessibilidade é permitir um ganho de autonomia e de mobilidade a uma gama maior de pessoas, até mesmo àquelas que tenham reduzida a sua mobilidade ou dificuldade em se comunicar, para que usufruam dos espaços com mais segurança, confiança, comodidade.
Agindo dessa forma, obtém-se ambientes que atendam às propostas do design universal, sem, entretanto, custar mais.
O projeto que for concebido adequado às condições de acessibilidade sofrerá um acréscimo de 1% do valor da obra, e, por outro lado, se precisar ser adequado depois de construído esse valor poderá alcançar 25%. (National Comission on Architectural Barriers to Rehabilitation of the Handicapped, 1968)


DESENHO UNIVERSAL


O designer universal propõe que os espaços sejam projetados de forma a atender ampla gama da população, considerando as variações de tamanho, sexo, peso, ou diferentes habilidades ou limitações que as pessoas possam ter.
Esse conceito preconiza que uma cidade deve ser acessível a qualquer pessoa desde o seu nascimento até sua velhice, ou seja, as cidades devem ser acessíveis a todos.
Esses espaços devem permitir várias maneiras de serem usados ou explorados, e devem estar providos de elementos construídos únicos ajustáveis, ou múltiplos-complementares, de forma que o conjunto esteja adequado a algum tipo de necessidade ou característica do usuário (Marcelo Pinto Guimarães).
O caminho traçado por esses elementos construídos definirá por si só uma rota acessível, não importando qual seja o desenho desta, cada um a traçará da forma que lhe convier.
Outro princípio pretende fazer com que as pessoas despendam o mínimo possível de energia, atingindo um conforto ao vivenciar os ambientes.
Esse conforto pode ser medido através da relação do indivíduo com o ambiente em que ele vive. Quanto menor for o grau de dependência das pessoas para usufruir dos espaços, maior será o seu conforto.
A funcionalidade do espaço edificado permite a compensação das limitações, pois transforma elementos materiais em natural prolongamento do corpo, como instrumentos ainda mais fortes e precisos do que os olhos, pernas e mãos (Marcelo Pinto Guimarães).
Existem escalas diferentes dos ambientes, as quais abrangem desde os macro até os microambientes. A distinção entre eles se apresenta muito vaga.

MACRO E MICROAMBIENTE


Muitos pesquisadores e designers consideram que o macroambiente está numa escala arquitetônica, envolvendo relações espaciais, forma da edificação, sua estética, as condições locais e a interação desse com a comunidade, enquanto que o microambiente é caracterizado por uma escala pessoal individual. O espaço imediato que rodeia o indivíduo, em seu local de trabalho, em sua casa, é a chave do design centrado no usuário.
Criar um microambiente para o idoso não significa apenas diminuir o estresse, minimizar o efeito das perdas funcionais, ou compensar as incapacidades, mas criar, de uma forma que aumente a efetividade do usuário, aumentando sua autoconfiança e, portanto, mantendo sua auto-estima. (Arthur Schwartz)

MACROAMBIENTES ACESSÍVEIS


Um macroambiente acessível significa principalmente uma malha viária sem obstáculos, uma rede de transportes públicos que permita a qualquer pessoa, mesmo com limitações físicas, sensoriais, mentais ou funcionais, usá-la.
Tal acessibilidade dar-se-á por meio de uma organização clara e sistemática dos diferentes fluxos de circulação. Esse conjunto do macroambiente deve ser de fácil conservação, manutenção e limpeza, além de possuir um desenho que dificulte ações de vandalismo.
Para melhor integrar o homem ao entorno arquitetônico e ao transporte, é preciso garantir a segurança nos trajetos. Assim, construir estruturas transparentes, evitando zonas escondidas, e realocar móveis nos espaços promovem uma circulação mais fácil e segura das pessoas.
Para reduzir o desgaste físico, é necessário encurtar os trajetos percorridos pelos indivíduos, definindo vagas para veículos, sinalizando-as adequadamente e definindo-as em locais próximos dos edifícios, por exemplo. Uma sinalização clara e acessível a todos colabora para a interação do homem no espaço que ele vivencia e deve ser complementada com um sistema de informação.
O equilíbrio estético-funcional necessita de soluções integradas e padronizadas, destacando-se uma especial atenção ao desenho e à localização do mobiliário urbano.A fim de alcançar o objetivo de tornar a cidade acessível a todos, é indispensável empreender algumas ações como: facilitar o acesso aos transportes públicos, adaptar os veículos com equipamentos (plataformas elevatórias, por exemplo), de forma a anular os desníveis e vãos.
No tocante ao transporte individual, é preciso criar vagas especiais para as pessoas portadoras de deficiência e zona de embarque/desembarque, livres de obstáculos e adequar a sinalização de orientação da cidade, voltada para o usuário.

MICROAMBIENTE DE TRABALHO


Microambiente constitui-se no espaço imediato que rodeia o indivíduo. Planejar esse ambiente significa preocupar-se com as interações espaciais, que consistem, por um lado, em observar o mobiliário, a iluminação e a ventilação e, por outro, analisar a capacidade funcional do usuário.
O resultado da compatibilização desses aspectos forma o quadro de necessidades de cada indivíduo. Considerando o conceito do design universal obtêm-se desse resultado espaços funcionais, confortáveis, cômodos e acessíveis a todos.
É possível observar que essa preocupação já está presente nos escritórios do futuro.
O ambiente de trabalho moderno deve ter todos os instrumentos necessários ao dia-a-dia, dispostos de maneira equilibrada para que o usuário não perca tempo e paciência, deslocando-se excessivamente (Revista Exame, jun./jul. 97).
Além disso, já foi desenvolvida por fabricantes europeus cadeiras com design que permite regulagem variável para o assento e também para o apoio das costas. Os móveis possuem recursos mecânicos ou elétricos que permitem adequá-los às exigências do trabalho tanto em termos de altura quando de inclinação. Podendo, o móvel, ficar reto ou inclinado na altura desejada para que a pessoa trabalhe em pé ou sentada (Revista Exame, jun./jul. 97).
A escolha das cores dos móveis, e até mesmo dos computadores, aparece como uma tendência forte, o que permite concluir que a preocupação em adequar os espaços de trabalho ao seu usuário é crescente.
Com essas modificações incorporadas, menos mudanças serão requeridas para garantir a acessibilidade das pessoas com necessidades especiais. Na verdade, essas modificações dividem-se entre adequação das edificações e de objetos, ou dos produtos acessíveis.
Cada deficiência exige adequações variadas para suas diferentes necessidades. Alguns exemplos da variada gama de modificações que devem ser feitas nos ambientes para torná-los acessíveis a mais pessoas são indicados a seguir.
Para os deficientes visuais, muitas vezes, basta substituir as lâmpadas por outras mais potentes ou simplesmente acrescentar mais uma, ou então colocar uma cortina para dosar a claridade, diminuindo o ofuscamento.Para um trajeto seguro dessas pessoas, garantir as condições de conservação dos pisos, evitar a deposição de objetos como caixas, fios e vasos de plantas pelo chão, e, quando houver mudanças de nível, marcar o piso com uma faixa branca ou amarela.
Nas escadas e rampas, a instalação de corrimão é imprescindível para servir de apoio e guiar pessoas com dificuldades de visão.
Quanto aos deficientes auditivos, ao indicar rotas de fuga, dotá-las de dispositivos luminosos. Reduzir os ruídos é fundamental para evitar que provoquem confusão em quem tem a capacidade de audição reduzida. O uso de carpetes e cortinas pode atenuar os ruídos.
O uso de símbolos ou cores, na comunicação visual, pode facilitar bastante o trabalho da pessoa com deficiência mental.
E aos deficientes físicos é necessário garantir o acesso em nível, desde a entrada do prédio até a mesa de trabalho. Para superar os desníveis, o espaço deve dispor de rampas, elevadores ou equipamentos como plataformas elevatórias. Lembrar da adequação dos sanitários, cujas medidas devem possibilitar o uso com conforto e segurança de um indivíduo em cadeira de rodas.

PRODUTOS ACESSÍVEIS

Uma série de modificações que podem ser feitas, a baixo custo, nos produtos, deve aumentar significativamente a acessibilidade e a utilidade para indivíduos com dificuldades funcionais.
Incorporando essas modificações de design, desde o desenho inicial do produto-padrão, para que possa ser mais acessível ao consumidor, e tornando-se um produto com acessibilidade direta.
A inclusão dessas características de design pode servir de benefício substancial à sociedade como um todo, na medida em que elas capacitam os indivíduos com deficiência a levarem vidas mais independentes e produtivas.
Os produtos para pessoas com deficiência, por outro lado, podem beneficiar outros usuários sem deficiência ou impedimentos, reduzindo a fadiga, aumentando a velocidade e diminuindo o número de erros, além de proporcionar tempo de aprendizado acelerado (o uso de mouse, como exemplo). Hoje, já existe software que atende ao comando de voz e até fala com o usuário, por meio de sintetizador de voz.
Às vezes, não é possível introduzir a acessibilidade direta no produto-padrão, por não ser prático, por tornar o produto desajeitado, por encarecê-lo demais ou até porque algumas alternativas são incompatíveis.
Nesses casos, pode ser mais interessante fazer com que essas alternativas estejam disponíveis como opções-padrão, ou acessórios com um custo extra, e que passam a ser item de pedido especial para a fábrica. É importante que sejam listadas e descritas em um manual.
Por exemplo, os botões do aparelho de um ar condicionado, na forma em que se apresentam, são difíceis de serem discerníveis pelo tato. Portanto, o manuseio desse aparelho pode ser um problema para uma pessoa com dificuldade visual, O ideal seria que o painel de controles contivesse a opção de ser com botões com relevo, ou algum tipo de identificação tátil, disponível mediante solicitação.
A importância de adequar os espaços a todas as pessoas vem sendo gradativamente absorvida pelos responsáveis por criar os espaços, objetos ou produtos.
Esse conjunto de ações faz parte de um processo, que é visto como um caminho sem volta. Espera-se que este texto possa contribuir para agilizar esta trajetória.

*Sobre o texto:
Publicado no documento sobre o Primeiro Seminário Nacional "A Pessoa Portadora de Deficiência no Mundo do Trabalho", CORDE, nov97.

**Sobre a autora:
Arquiteta e urbanista, especialista em projetos de acessibilidade, Coordenadora de projetos de Acessibilidade, na Fundação Prefeito Faria Lima - CEPAM, Coordenadora da Comissão da Revisão da NBR 9050, do Comitê Brasileiro de Acessibilidade - CB40 da ABNT, Membro da Comissão de Acessibilidade do Conselho Estadual de Atenção à Pessoa Portadora de Deficiência, Consultora da Coordenadoria Nacional para Integração da pessoa Portadora de Deficiência - CORDE, Membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - SBGG/SP

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACCESSIBLE. Design of consumer products: Guidelines for the design of consumer products to increase their accessibility to people with disabilities or who are aging. Preliminary/Working Draft Compilado por Gregg C. Vanderheiden e Katherine R. Vanderheiden Madison: University of Wisconsin, Trace R&D. Center of Waisman Center and Dept. of Industrial Engineering, 1991 83p.
KONCELIK, Joseph A Product and Funiture Design for the Cheonicolly Impaired Elderly In: Housing environments for frail older persons - Product and Furniture Design for the Impaired ?. 19??, p.373 - 398.
JUNCÁ UBIERNA, José Antonio La accesibilidad del entorno urbano um reto paro uma mejor movilidad de todos. Salvador, 1994. Trab. Apres. No II Encontro Ibero-Americano de Ingenieria Civil y Construccion, FIADICC, "Ingenieria Civil y desarollo Urbano". 25-27 abr. 1994, Salvador - Bahia - Brasil.
GUIMARÃES, Marcelo Pinto. A graduação da Acessibilidade versus a Norma NBR 9050 - 1994. Uma análise de conteúdo. Belo Horizonte: Centro de Vida Independente Belo Horizonte, CVI. BH, 1995.

 

 


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