Deficiência Auditiva

 


Audição em Idosos  Iêda Chaves Pacheco Russo*


1. Introdução

A deficiência auditiva gera no idoso um dos mais incapacitantes distúrbios de comunicação, impedindo-o de desempenhar plenamente o seu papel na sociedade. É comum observarmos o declínio da audição acompanhado de uma diminuição frustrante na compreensão da fala no idoso, comprometendo sua comunicação com os familiares, amigos, enfim, todas as pessoas que o cercam.
O fluxo constante de comunicação e informação mantém o indivíduo ativo na sociedade. O isolamento da pessoa idosa, particularmente, da sociedade mais jovem e o conseqüente declínio na qualidade de sua comunicação, devido aos déficits sensoriais, geram um impacto psicossocial profundo neste idoso.
Comunicar é partilhar com alguém um conteúdo de informações, pensamentos, idéias, desejos e aspirações, com quem passamos a ter algo em comum. A comunicação feita por meio da linguagem falada responde à necessidade vital do homem na busca de novas experiências e conhecimentos, sendo um ato social fundamental em nossas vidas. Entretanto, a aquisição e a manutenção da linguagem falada requerem entre outras coisas uma perfeita audição; ouvir a linguagem por determinado tempo é essencial para ultimar o seu uso. Além disso, a audição é imprescindível como mecanismo de alerta e defesa contra o perigo, permitindo localizarmos fontes sonoras à distância, dando-nos segurança e participação vital.
Todavia, com o passar do tempo associado a fatores como a exposição do ouvido a ruídos intensos, uso indiscriminado de medicamentos, tensão diária e doenças, vamos perdendo nossa sensibilidade auditiva, reduzindo, assim, nossa área de audição. Ouvimos mas não entendemos, principalmente em ambientes ruidosos; sons fortes nos incomodam; zumbidos e dificuldade de perceber sons musicais mais agudos, podem ser alguns dos sintomas desta perda de audição conhecida como presbiacusia, ou perda auditiva decorrente do processo de envelhecimento (RUSSO, 1988).
Uma forma de minimizarmos estes efeitos negativos da deficiência auditiva nestes indivíduos é a utilização dos recursos tecnológicos à disposição do fonoaudiólogo que atua na Audiologia - Aparelhos de Amplificação Sonora s (AAS), também chamados Próteses Auditivas, e Equipamentos Auxiliares para a Audição.
Atualmente, o processo de escolha de um sistema de amplificação depende de um programa de adaptação ao uso destes sistemas. A implantação de um programa de reabilitação audiológica global, que auxilie o idoso portador de deficiência auditiva, bem como seus familiares, a lidarem com as desvantagens e incapacidades resultantes desta deficiência, no qual a adaptação do aparelho de amplificação sonora seja encarada, não como essência, mas sim como parte integrante deste programa, poderá acelerar esse processo, contribuindo para restaurar o seu bem estar físico, mental e social.

2. O envelhecimento do sistema auditivo: a presbiacusia


De todas as privações sensoriais que afetam o idoso, a incapacidade de comunicar-se com os outros devido à perda auditiva pode ser uma das conseqüências mais frustrantes, produzindo um impacto profundo e devastador em sua vida psicossocial. A perda da sensibilidade auditiva resultante do envelhecimento é conhecida como presbiacusia.
Estritamente, a presbiacusia é, tipicamente, caracterizada por uma perda auditiva bilateral para tons de alta freqüência, devido a mudanças degenerativas e fisiológicas no sistema auditivo com o aumento da idade (CORSO, 1977).
Idosos portadores de presbiacusia experimentam uma diminuição da sensibilidade auditiva e uma redução na inteligibilidade da fala, o que vem a comprometer seriamente o seu processo de comunicação verbal. A perda auditiva em altas freqüências (agudos) torna a percepção das consoantes muito difícil, especialmente quando a comunicação ocorre em ambientes ruidosos. Freqüentemente, respostas inadequadas de indivíduos idosos presbiacúsicos geram uma imagem de senilidade, a qual, pode não condizer com a realidade. A queixa típica destes indivíduos é a de ouvirem, mas não entenderem o que lhes é dito (RUSSO, 1988).
A intolerância a sons de grande intensidade é outra queixa bastante freqüente, indicando a presença do recrutamento, principalmente nas lesões sensoriais. O recrutamento é definido como um aumento desproporcional da sensação de intensidade em relação ao aumento da intensidade física, implicando em uma redução do campo dinâmico de audição (SANTOS & RUSSO, 1993). A diferença entre o que o indivíduo detecta em seu limiar auditivo mínimo, e o que ele tolera, em seu limiar de desconforto, é bastante reduzida. Isto significa que quando os outros falam em intensidade fraca, o idoso não consegue ouvir e compreender a mensagem falada, mas ao elevarem a intensidade da voz, atingem o nível de desconforto do idoso, o qual tende a declarar com irritação: "Não grite, pois eu não sou surdo".
A despeito da visão tradicional da presbiacusia estar centralizada nas alterações de orelha interna, nenhuma parte do sistema auditivo escapa dos efeitos do envelhecimento. Na orelha externa, a inspeção visual do pavilhão auricular freqüentemente revela um aumento de tamanho, devido à diminuição da elasticidade da pele e da tonicidade muscular, embora tal mudança não produza maiores efeitos na sensibilidade auditiva. Entretanto, a perda de elasticidade na porção cartilaginosa do meato acústico externo pode levar ao seu colabamento, introduzindo uma perda condutiva falsa nas altas freqüências, resultante da pressão exercida pelo fone do audiômetro. É, também, comum o aumento na produção de cerume e na quantidade de pêlos, principalmente nos indivíduos do sexo masculino (Mc CARTHY, 1987).
Na orelha média poderá ser observada a redução da elasticidade do tecido muscular, calcificação dos ligamentos e dos ossículos, diminuição das características de transmissão, as quais, entretanto, não levam a alterações audiológicas significativas (JERGER, JERGER & MAULDIN, 1972).
Todavia, indubitavelmente, a degeneração que mais decisivamente interfere com a audição envolve as estruturas da orelha interna (CORSO, 1977).
O envelhecimento da orelha humana é o resultado cumulativo de vários fatores extrínsecos etiológicos somados ao modelo de envelhecimento geneticamente determinado: exposição a ruídos ocupacionais e não ocupacionais; nutrição; estresse; uso de medicamentos (GILAD & GLORIG, 1979; NOVAK & GLORIG, 1989).
O processo de envelhecimento revela-se pelas mudanças na sensibilidade auditiva para 1000 Hz, começando aos 30 anos de idade. A partir daí, a queda para esta freqüência é de cerca de 3dB e, para 6000Hz, o decréscimo é de aproximadamente 10dB para cada 10 anos de vida, até os 70 anos (GLORIG & NIXON, 1960).


3. Principais implicações da deficiência auditiva no idoso

Ser um idoso portador de deficiência auditiva adquirida é algo que vai além do fato do indivíduo não ouvir bem, levando a implicações psicossociais sérias para a vida deste indivíduo e para os que convivem com ele diariamente. As frustrações que ele vivencia, pela inabilidade de compreender o que os familiares e amigos estão falando, representam um desafio . É portanto, mais cômodo afastar-se das situações nas quais ocorra a comunicação ao invés de enfrentar embaraços decorrentes da falta de compreensão ou respostas inapropriadas dadas às questões não entendidas corretamente.
É muito freqüente os familiares descreverem o idoso portador de deficiência auditiva como confuso, desorientado, distraído, não comunicativo, não colaborador , zangado, velho e, injustamente, senil.
O aumento da pressão auto-imposta para ser bem sucedido na compreensão da mensagem gera ansiedade e aumenta a probabilidade de falhar nesta tarefa. A ansiedade leva à frustração e a frustração leva à falha; a falha, por sua vez leva à raiva e, finalmente, a raiva leva ao afastamento da situação de comunicação. O resultado é o isolamento e a segregação.
A Organização Mundial de Saúde, em 1980, definiu outras duas conseqüências importantes da deficiência auditiva, sendo elas: a incapacidade auditiva e o handicap (desvantagem).
A incapacidade auditiva refere-se à qualquer restrição ou falta de habilidade para desempenhar uma atividade dentro de uma faixa considerada normal para o ser humano, principalmente relacionada aos problemas auditivos experienciados pelo indivíduo com referência à percepção de fala em ambientes ruidosos, televisão, rádio, cinema, teatro, igrejas, sinais sonoros de alerta, música e sons ambientais (W.H.O., 1980).
Já a desvantagem (handicap) relaciona-se aos aspectos não auditivos, resultantes da deficiência e da incapacidade auditivas, os quais limitam ou impedem o indivíduo de desempenhar adequadamente suas atividades de vida diária e comprometem suas relações na família, no trabalho e na sociedade. Esta desvantagem é grandemente influenciada por idade, sexo e pelos fatores psicossociais, culturais e ambientais (W.H.O., 1980).
KRICOS & LESNER (1995) resumiram as implicações da deficiência auditiva no idoso, destacando:

  • Redução na percepção da fala em várias situações e ambientes acústicos.
  • Alterações psicológicas: depressão, embaraço, frustração, raiva e medo, causados por incapacidade pessoal de comunicar-se com os outros.
  • Isolamento social: interação com família, amigos e comunidade seriamente afetada.
  • Incapacidade auditiva: igrejas, teatro, cinema, rádio e TV.
  • Problemas de comunicação com médicos e profissionais afins.
  • Problemas de alerta e defesa: incapacidade para ouvir pessoas e veículos aproximando-se, panelas fervendo, alarmes, telefone, campainha da porta, anúncios de emergências em rádio e TV.


    4. Habilidades Pessoais e Qualidades do Profissional que atua na Reabilitação Audiológica de Idosos
    (Russo, 1999).


  • Ser um bom orador: falar em voz audível, devagar, sem omitir palavras, com articulação clara sem exageros. Usar gestos.
  • Evitar colocar a mão em frente à boca, mascar ou mastigar enquanto fala. Procurar olhar para os indivíduos, enfatizando as informações mais importantes. o Ter empatia, autenticidade, respeito e interesse verdadeiro pelo bem estar dos idosos. Calor humano e gentileza. Saber sorrir, usar o toque, ser atento e cordial.
  • Ter história de experiências positivas com idosos e desejo de aprender com eles.
  • Ter compreensão dos aspectos bio-psico-sociais do envelhecimento.
  • Ter convicção de que os últimos anos de vida podem ser um desafio.
  • Ter sensibilidade para com as ansiedades e as cargas que cada indivíduo suporta em sua vida.
  • Ter habilidade para encorajá-los a desafiarem os mitos sobre o envelhecimento e vislumbrarem o futuro, pois idosos nada mais são do que jovens que viveram muito.

    OBS: Este texto foi produzido para a rede a partir do capítulo do livro: Intervenção Fonoaudiológica para a Terceira Idade, organizado pela autora.* Fonoaudióloga - Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina e Professora Titular do Departamento de Clínica Fonoaudiológica e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Diretora do Núcleo de Estudos Audiológicas - N.E.A. e Representante do Brasil na International Society of Audiology


    5. Referências Bibliográficas:

    1.CORSO, J.F. - Presbycusis, hearing aids and aging. Audiology, 16 (2): 146 -163, 1977.
    2.GILAD, C. & GLORIG, A. - Presbycusis: The Aging Ear. Part I .J.Am.Aud.Soc., 4 (5): 195-206, 1979.
    3.GLORIG, A. & NIXON, J. - Distributions of hearing loss in various populations. Ann.Otol.Rhinol.Laryngol., 69: 497 - 516, 1960.
    4.JERGER, J.; JERGER, S.; MAULDIN, L. - Studies in impedance audiometry: normal and sensorineural ears. Arch.Otolaryngol., 96 : 513-523, 1972.
    5.KRICOS, P.B. & LESNER, S.A . - Hearing care for older adult audiologic rehabilitation. Boston, Butterworth-Heinemann, 1995.
    6.McCARTHY, P.A. - Rehabilitation of the hearing impaired geriatric client. In: ALPINER, J.G. & McCARTHY, P.A. - Rehabilitative audiology: children and adults . Baltimore, The Williams & Wilkins, 1987. pg: 370 -409.
    7.RUSSO,I.C.P. - Uso de próteses auditivas em idosos portadores de presbiacusia: indicação, adaptação e efetividade. São Paulo, 1988, Tese de Doutorado - Universidade Federal de São Paulo/ Escola Paulista de Medicina.
    8.RUSSO, I.C.P. & BEHLAU, M. - Percepção da fala: análise acústica do português brasileiro . São Paulo, Editora Lovise, 1993.
    9.RUSSO, I.C.P. - Distúrbios da Audição: Presbiacusia. In: RUSSO, I.C.P. (org.) - Intervenção Fonoaudiológica na Terceira Idade. Cap.4, pág. 51 a 82. Rio de Janeiro, Editora Revinter, 1999.
    10. SANTOS, T.M.M. & RUSSO, I.C.P. - A prática da Audiologia Clínica. 3a ed. São Paulo, Cortez Editora, 1993.12
    11.W.H.O. - International classification of impairments, disabilities and handicaps. Geneva, Switzerland: World Health Organization, 1980.
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