Deficiência Física


Paralisia Cerebral
Cristianne Akie Kavamoto*

* Médica-fisiatra coordenadora da equipe infantil da Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

1- Definição / Conceito

É o termo utilizado para definir um conjunto de distúrbios motores decorrentes de lesão no cérebro durante os primeiros estágios de desenvolvimento. Pode ocorrer também alteração mental, visual, auditiva, da linguagem e do comportamento. A lesão é estática: não muda e não se agrava, ou seja, o quadro não é progressivo. No entanto, algumas características podem mudar com o tempo.

2- Causas

O fator causal pode ocorrer antes, durante ou após o parto.
Antes do parto (causas pré-natais): infecções como rubéola, sífilis, listeriose, citomegalovirose, toxoplasmose e SIDA; uso de drogas, tabagismo, álcool; desnutrição materna; alterações cardiocirculatórias maternas (todos os nutrientes, inclusive o oxigênio da criança advêm da mãe).
Próximo do parto (causas perinatais): anóxia (falta de oxigênio no cérebro), hemorragias intracranianas (trauma obstétrico).
Após o parto (causas pós-natais): traumas na cabeça, meningites, convulsões, desnutrição, falta de estimulação, hidrocefalia.
O cérebro é o órgão que controla todo o funcionamento do organismo. É muito sensível e sofre logo com a falta de combustível (oxigênio) que mantém suas células vivas. A falta de oxigênio para o cérebro é uma das maiores causas de lesão cerebral e traz prejuízo para o desenvolvimento normal e pode acontecer antes, durantes ou depois do parto.
O Sistema Nervoso Central (SNC) é formado pelo cérebro e medula espinal. O desenvolvimento do SNC se inicia dentro do útero e continua até os 18 anos de idade. Por isso, dependendo da etapa de desenvolvimento do cérebro, uma lesão tem efeitos diferentes. Após a lesão, o SN continua a se desenvolver às custas das partes não lesadas.

3- Identificação e Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, ou seja, deve ser feito através da história e exame físico da criança realizado por médico habilitado. Os exames complementares, como tomografia computadorizada, podem não ter correlação com a gravidade do quadro (não irão determinar se o quadro é grave ou não, mas apenas constatar a presença da lesão), mas são importantes para determinar a etiologia. O diagnóstico precoce é fundamental para que o tratamento seja estabelecido de forma precoce.

4- Desenvolvimento

São as alterações que ocorrem na vida de uma pessoa desde seu nascimento. Ocorre no sentido da cabeça para os pés. O padrão de normalidade é definido a partir da média de uma população considerada normal.
Quando a família percebe que uma criança apresenta alteração no seu desenvolvimento (por exemplo, demora a sentar, andar ou falar) deve procurar logo o pediatra.

O seu bebê faz isto?

Leia com atenção estas informações, você poderá observar e perceber se o seu bebê está fazendo o que é esperado em cada fase de desenvolvimento. Caso o bebê apresente dificuldades, procure o pediatra e informe o que está acontecendo, ele poderá explicar e orientar você sobre o que fazer. Importante lembrar que os dados abaixo (em cada fase), representam o que a maioria dos bebês consegue fazer e que cada bebê apresenta condições diferentes de desenvolvimento.

RECÉM-NASCIDO

Ao nascer, o bebê mantém uma relação muito forte com a mãe, sentindo-se como fazendo parte do seu corpo. Nesta fase, o bebê deita em posição fetal (corpo encolhido), mantendo as mãos fechadas. Reage ao som, a luz e ao toque.

O EXAME PRÉ-NATAL É UM DIREITO DA GESTANTE E
SEU MAIS IMPORTANTE DEVER DE CIDADÃ.

AOS TRÊS MESES

A partir dos três meses, o bebê consegue sustentar a cabeça, ficar com os braços soltos e as mãos abertas. Começa a sorrir e seguir com os olhos e a cabeça objetos e sons apresentados. Presta atenção ao que está a sua volta e já tenta pegar os objetos mostrados, apesar de não conseguir.

AOS SEIS MESES

O bebê já é capaz de pegar objetos que vê, combina os movimentos das mãos e olhos, passa os objetos de uma mão para outra. Se colocado de bruços (deitado de barriga para baixo), vira de lado e de barriga para cima sem ajuda. Arrasta-se de barriga para baixo. Começa a descobrir o próprio corpo (é quando leva o pé à boca). Reconhece objetos, manipulando-os e colocando-os na boca.
A partir do sexto mês o bebê é capaz de ficar sentado sem apoio.

AOS NOVE MESES

Nesta fase, o bebê emite sons o tempo todo. Senta sem apoio. Engatinha e fica em pé com apoio.

TODO CIDADÃO TEM DIREITO À
ASSISTÊNCIA MÉDICA PÚBLICA. PROCURE E EXIJA O
SEU DIREITO DE SER ATENDIDO


AOS DOZE MESES
(1º aniversário)

Ao completar 1 ano de vida, a criança pode andar sem ajuda. Começa a falar as primeiras palavras e entende ordens simples. Imita o que vê e mostra o que quer com o dedo. É capaz de perceber coisas que estão escondidas. Gosta de brincar de "esconder" e tentar encaixar e empilhar objetos.

AOS DEZOITO MESES

A criança anda com segurança, porém corre desajeitadamente. Quer subir, abrir e mexer em tudo o que vê. Começa controlar "xixi/cocô" e usar o piniquinho. Fala mais palavras do que no primeiro ano de vida.

AO PERCEBER ALGUMA DIFERENÇA NO
DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA.
PROCURE IMEDIATAMENTE O PEDIATRA.

AOS VINTE E QUATRO MESES (2º ano de vida)

A criança corre com segurança, cria situações e histórias novas em suas brincadeiras. Gosta de rabiscar e é capaz de folhear as páginas de um livro.

EXIJA QUE O PEDIATRA ESCLAREÇA
SUAS DÚVIDAS E PEÇA ORIENTAÇÃO
DO QUE DEVE FAZER.


Peso (meninos e meninas)
nascem com ± 3Kg ( até 2,5Kg pode ser normal, mas merece atenção)
até 6 meses aumentam de 20 a 30g por dia
de 6 a 12 meses aumentam 15 a 25g por dia
De 12 a 24 meses ganham mais 2 a 3Kg

 

Altura (meninos e meninas)
nascem com 49 a 51cm de comprimento
aos 3 meses tem ± 58 a 60cm de comprimento
aos 6 meses tem ± 64 a 68cm de comprimento
de 6 a 12 meses ganham 10cm a mais de comprimento
De 12 a 24 meses ganham mais 10cm de comprimento

 

Perímetro Cefálico ( meninos e meninas)
nascem com ± 33 a 35cm
até 3 meses aumentam 2cm por mês
de 3 a 6 meses aumentam 1cm por mês
de 6 a 12 meses aumentam 0,5cm por mês
De 12 a 24 meses aumentam mais 2cm

Fonte: Folder elaborado pela APABEX (Associação de Pais Banespianos de Excepcionais), APABB (Associação de Pais e Amigos de Pessoas Portadoras de Funcionários do Banco do Brasil) e AME (Amigos Metroviários dos Excepcionais).

5- Classificação

Há vários tipos, dependendo da alteração motora predominante.
Espástico: É o tipo mais comum. Ocorre lesão do córtex cerebral com diminuição da força muscular e aumento do tônus muscular. Tônus é o grau de tensão muscular. Ocorre um aumento da tensão que pode ser sentido à palpação ou como uma maior resistência à movimentação de uma parte do corpo.
Atetóide: ocorrem movimentos involuntários que a criança não consegue controlar.
Atáxico: dificuldade na coordenação motora (tremores ao realizar um movimento).
Mistos: características de 2 tipos ao mesmo tempo (por exemplo: espástico e atetóide)

Dependendo da distribuição das partes do corpo afetados, teremos:
Tetraparesia: pernas e braços igualmente comprometidos.
Diparesia: as pernas são mais comprometidas do que os braços.
Hemiparesia: um lado do corpo é afetado.
Monoparesia: apenas um membro é afetado.

6- Problemas associados

São decorrentes da lesão neurológica da criança: convulsões, alterações visuais e/ou auditivas, alteração do comportamento, hiperatividade, déficit de atenção, alteração da deglutição, mastigação, atraso na linguagem, alterações dentárias, etc. Cada distúrbio deve ser diagnosticado e tratado adequadamente. O comprometimento mental é muito variável; nem todo portador de PC tem deficiência mental.

7- Prognóstico

A evolução da criança depende do seu potencial e da resposta ao tratamento realizado.

8- Reabilitação

A reabilitação da criança com paralisia cerebral deve abranger todos os aspectos do desenvolvimento: motor, psicológico, comunicação, social e cultural. Deve ser realizada por equipe interdisciplinar com a participação de diferentes terapeutas, sendo o envolvimento da família essencial para a realização e sucesso do tratamento. Os familiares não se tornarão terapeutas ou técnicos, mas devem aprender noções básicas de como lidar com a criança e como realizar sua estimulação em casa. Os exercícios são a medicação que a criança deve "tomar" todos os dias em casa. O objetivo do tratamento varia para cada paciente, mas deve sempre visar a maior independência e melhor qualidade de vida possível.
A equipe de reabilitação deve ser composta por técnicos de diferentes áreas: fisiatria, odontologia, serviço social, psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional, enfermagem, fonoaudiologia. Dependendo das particularidades de cada criança pode haver necessidade do acompanhamento de outros profissionais: neurologista, ortopedista, psiquiatra, pneumologista, gastroenterologista, otorrinolaringologista e nutricionista.
A criança necessita antes de tudo do carinho e afeto da família. Todos nós precisamos nos sentir amados para conseguirmos nos desenvolver e crescer; a criança portadora de necessidade especial também.

Sem estimulação não há desenvolvimento!

 

 


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