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APRENDENDO NA DIVERSIDADE: IMPLICAÇÕES EDUCATIVAS
Rosa
Blanco
A
exposição terá três partes. Em primeiro
lugar tratarei sobre o conceito de necessidades educativas especiais
e as diferenças entre integração e inclusão,
porque sinto que incorporamos muito rápido esses termos à
linguagem, mas muitas vezes só estamos mudando o rótulo,
o nome, para continuar chamando de diferentes formas a mesma coisa.
Por isso acredito que vale a pena abordar um pouco a conceituação
que supõe as necessidades educativas especiais e que diferenças
existem entre integração e inclusão. E finalizarei
com as condições que devem existir para se conseguir
o desenvolvimento de escolas inclusivas; embora Álvaro Marchesi,
em sua excelente exposição, tenha abordado esse tema,
iremos aprofundá-lo no dia de hoje.
I
Em relação ao conceito de necessidades educacionais
especiais, acredito que é importante que partamos do papel
da escola, da educação escolar. A educação
escolar e a escola, diferentemente de outro tipo de educação
(familiar, por exemplo), tem como importante finalidade promover,
de forma intencional, o desenvolvimento de certas capacidades, a apropriação
de certos conteúdos da cultura que são fundamentais
para que as pessoas depois se tornem membros ativos dessa cultura,
o que se chama, no Brasil, Construção de Cidadania.
Como aponta Álvaro Marchesi, com essa finalidade a escola encontra-se
perante um duplo desafio: conseguir que todos os meninos e meninas
de um país adquiram essas bases da cultura que lhes permitam
inserir-se com maior igualdade de condições e, ao mesmo
tempo, conseguir conciliar as diferenças individuais; conseguir
que todos os meninos e meninas tenham acesso a essa aprendizagem básica,
respeitando as diferenças culturais, sociais e individuais.
Acredito que este é um desafio que não é fácil
de se resolver na prática.
1-
Adaptação realizada a partir da transcrição
da Conferência "Aprendendo em la Diversidad: Implicaiones
Educativas", apresentada no III Congresso Ibero-americano de
Educação Especial (Foz do Iguaçu - PR, 4 a 7.11.98).
2 - Rosa Blanc Guijarro nasceu na Espanha. É licenciada em
Ciências da Educação, com doutorado em Psicologia
Evolutiva da Aprendizagem pela Universidade Autônoma de Madri.
Atua junto ao Escritório Regional de Educação
para América Latina e Caribe - OREALC, da UNESCO, em Santiago
do Chile. É Especialista em Necessidades Educativas Especiais,
Educação Infantil. Currículo e Inovação
Educativa. Coordenou, em Foz do Iguaçu, de 2 a 4.11.98, a III
Reunião Regional de Dirigentes de Educação Especial
e dos Conselhos Nacionais de Portadores de Deficiência da América
Latina e do Caribe - Acompanhamento do Marco de Ação
de Salamanca, patrocinada pela UNESCO
Então, nesse sentido, poderíamos falar de um contínuo
de necessidades especiais. Existem certas necessidades educacionais
comuns que todos os meninos e meninas compartilham. São aquelas
aprendizagens que, no geral, são expressas no currículo
não oficial de cada país e são, via de regra,
compartilhadas, constituindo referencial de educação
de todo menino e menina, esteja onde estiver e seja qual for sua condição
social, cultural e pessoal. Mas todos sabemos que cada menino e menina
chega na escola com uma bagagem pessoal própria. Todos eles
sobem no "trem" do aprendizado com uma "bagagem"
particular, com suas próprias crenças, com sua visão
do mundo, sua cultura de referência, em alguns casos sua própria
língua, diferente da que é usada na escola, com condições
pessoais diferentes, com interesses distintos, com capacidades distintas.
Essa é a "bagagem" da qual temos que partir, se queremos
realmente que progridam na aprendizagem. E essas seriam as necessidades
individuais que também todos esses meninos e meninas têm.
As diferenças são inerentes ao ser humano e, na diferença
ou na diversidade, não estão somente as minorias ou
as crianças com deficiências. Essa seria, talvez, a diversidade
mais marcante. Todos somos diferentes. Às vezes se entende
errado o conceito de diversidade, porque falar de diversidade é
falar de coletivo e, no interior desse coletivo, também existem
muitas diferenças individuais. Uma criança surda não
se iguala a outra. Ou seja, as diferenças são uma condição
inerente a qualquer ser humano.
No geral, todo professor e professora conhece muitas estratégias
para dar resposta a essas diferentes necessidades que se encontram
em sala de aula. No entanto, existem algumas necessidades individuais
que não podem ser resolvidas pelos meios que os professores
conhecem para dar resposta a essas diferenças. Existem necessidades
educacionais individuais que requerem uma série de recursos
e apoios de caráter mais especializado. E aqui estaríamos
falando já de necessidades educacionais especiais, quando existem
necessidades que requerem que se proporcione ao aluno uma série
de meios de acesso ao currículo. Uma criança com uma
deficiência visual não teria por que ter problemas para
aprender matemática, linguagem, ciências, se lhe fosse
ensinado o Braille e lhe fossem proporcionados materiais específicos.
Esses meios de acesso lhe abrem a porta para progredir no currículo
escolar. Mas existem algumas necessidades que requerem modificações
no próprio currículo. Existem meninos e meninas que
requerem que se lhes dê mais tempo para aprenderem determinados
objetivos ou conteúdos. Algumas vezes é necessário
introduzir conteúdos que não são necessários
para os outros colegas, mas são necessários para ele
individualmente. Em alguns casos esses alunos podem ter acesso aos
mesmos conteúdos trabalhando-os em diferentes graus de complexidade;
em outros, o que temos que fazer é procurar estratégias
de ensino um pouco diferentes para que atinjam seus objetivos. Existem
necessidades educacionais que justificam a modificação
do contexto onde a criança se desenvolve e aprende. Nesse caso,
deve-se modificar a prática educativa, a organização
da escola, da sala de aula, e também deve-se ter muito presente
a importância do clima afetivo ou emocional para que o aluno
aprenda e se desenvolva adequadamente.
Vemos que as necessidades educacionais especiais não se definem
pela origem do problema: definem-se pelo tipo de resposta educativa
e pelo tipo de recursos, de ajudas que se deve proporcionar. Nesse
sentido, até agora, só as crianças com deficiência
pareceriam ter direito a esses recursos e ajudas especiais. No entanto,
a nova idéia é que o conceito de necessidades especiais
abra um leque muito mais amplo e que "necessidades especiais"
não seja sinônimo de "deficiência".
Eu sinto que fomos substituindo termos. Se substituiu incapacidade
por deficiência, quando são coisas diferentes. Os meninos
e meninas com deficiência são, provavelmente, crianças
com necessidades educativas especiais, mas há muitos outros
meninos e meninas que embora não sejam portadores de deficiência,
por motivos diversos têm necessidades especiais que requerem
um ensino um pouco diferenciado. Portanto, o conceito de necessidades
especiais é mais amplo, e engloba mais alunos e não
somente aqueles com deficiência. Trata-se de um tema importante,
porque, às vezes, falamos de necessidades especiais para nos
referirmos à deficiência, e não há nenhum
problema de se referir à deficiência, pois não
se trata de uma questão de terminologia ou de linguagem: é
uma questão de mudar conceitos e práticas. E também
não devemos chegar ao extremo: o fato de falarmos de necessidades
especiais não implica deixarmos de falar em deficiência;
necessidades especiais explicam, em parte, o problema do desenvolvimento
da aprendizagem, e isso não podemos esquecer. A deficiência,
por sua vez, não define a essência da pessoa, não
define o que essa pessoa é em sua totalidade, não explica
totalmente o nível de desenvolvimento de aprendizado. Deficiência
é mais uma condição da pessoa. Às vezes,
parece que quando dizemos "uma pessoa cega", estamos explicando
tudo o que a pessoa é e todo o seu desenvolvimento de aprendizagem,
e isso não é assim. Costuma-se dizer que as necessidades
especiais são dificuldades de aprendizagem ou defasagens das
crianças com relação ao currículo que
lhes corresponde a idade.
Em uma recente reunião da UNESCO, com todos os responsáveis
pelos Ministérios de Educação, estivemos refletindo
sobre a necessidade de começar a falar mais em "necessidades
especiais de ensino" e não tanto de "dificuldades
de aprendizagem", porque isso implica que se continuamos falando
de dificuldades de aprendizagem, estamos centrando o foco na criança
e a idéia é ver como modificamos o sistema educativo
e a resposta educativa para daí acolher toda essa diversidade
que temos nas salas de aula. O conceito de necessidades educacionais
especiais também tem um caráter interativo. Essas necessidades
são relativas, mutantes: algumas crianças as têm
maneira transitória; outras, de maneira mais permanente. Mas
temos observado que esse conceito de necessidades especiais transitórias
não se dá na prática. Quando se põe um
rótulo, do tipo que for, ele se mantém. Isto é,
crianças que podem ter uma necessidade especial transitória,
ainda que já a tenham superado, continuam sendo vistas como
crianças com necessidades especiais durante toda a sua vida
escolar.
II
Veremos agora o conceito, a diferença entre integração
e inclusão. Sinto que faz muito pouco tempo que só falávamos
de integração, inclusive em Congressos desse tipo o
título sempre era integração, e agora se fala
de inclusão. Também sinto que se está substituindo
o termo inclusão pelo de integração como se fosse
a mesma coisa, e não é assim.
A integração surgiu há muitos anos, na década
de 60, em muitos países, e a integração está
relacionada, diretamente, com as crianças com deficiência.
Foi um movimento que se deu em uma época de uma grande movimentação
social e civil, de luta por direitos, especialmente dos mais desfavorecidos.
O que a integração busca é dar resposta a estas
questões: Como incorporar, na educação geral,
meninos e meninas com deficiência que, durante muitos anos,
têm estado em um sistema segregado, paralelo, totalmente diferente?
Como ir incorporando esses meninos e meninas à escola comum?
E é um movimento que surge, principalmente, por uma questão
de direitos, por uma questão de justiça e igualdade.
O direito desses meninos e meninas a uma educação num
ambiente o mais normalizador possível e com seus pares. Portanto,
a integração está ligada aos meninos e meninas
com deficiência, e tem sido promovida pela Educação
Especial. Portanto, é um termo muito mais restrito que Inclusão.
Ainda mais: dá-se o interessante paradoxo que temos visto em
alguns países da América Latina: por um lado, estão
sendo integrados meninos e meninas com deficiência à
escola comum; por outro, essa mesma escola comum, que integra essas
crianças, segrega outros alunos de diferentes maneiras. Adapta
o ensino à criança rotulada como de integração,
mas não o adapta a outra criança que está na
sua mesma sala de aula. Isso, no fundo, também nos mostra que
temos tido um paradigma em Educação Especial, instalado
há muito tempo, muito centrado no clínico, na reabilitação,
no individual; assim, quando se começa uma experiência
de integração, é reproduzido, no interior da
escola, o mesmo enfoque da escola especial.
E a inclusão, como muito bem diz Álvaro Marchesi, parte
do pressuposto da própria natureza da escola básica,
da escola da educação comum. A inclusão é
a idéia de que todos os meninos e meninas de uma comunidade
tenham o direito de se educar juntos na escola da sua comunidade,
uma escola que não peça requisitos para o ingresso;
uma escola que não selecione crianças. O conceito de
escola inclusiva é ligado à modificação
da estrutura, do funcionamento e da resposta educativa, de modo que
se tenha lugar para todas as diferenças individuais, inclusive
aquelas associadas a alguma deficiência. Logo,é um conceito
muito mais amplo do que o de integração. A inclusão
não é um conceito novo. A escola rural é inclusiva.
Na rural vão todos os meninos e meninas da comunidade, inclusive
os que têm deficiência. Portanto, a inclusão não
é algo novo, já existe, e qual é, então,
o desafio? O que é novo? Generalizar isso à totalidade
do sistema educativo. Vimos também, em uma reunião da
UNESCO, como as zonas mais excludentes são normalmente as zonas
urbanas, de classe média alta. E as zonas mais inclusivas são
as zonas rurais e as zonas periféricas ou de menor nível
econômico-social. Dessa forma, o tema da inclusão está
se dando: a idéia e o desafio - e acredito que isso não
é fácil - é como podemos generalizá-lo
ao conjunto do sistema educativo.
A educação inclusiva não é uma ação
da Educação Especial. É da escola comum. Implica
transformar a Educação Comum no seu conjunto e, assim,
deveremos transformar a Educação Especial para que contribua
de maneira significativa ao desenvolvimento de escolas de qualidade
para todos , com todos e entre todos. Não poderemos impulsionar
a inclusão a partir da Educação Especial; esse
é um desafio da escola comum. É triste ver que a esse
tipo de Congresso sempre vem gente que já tem isso tudo muito
claro, que está mais convencida, gente da Educação
Especial. Tomara que consigamos que mais gente da Educação
Comum participe desse processo, porque caso não seja desde
a escola comum, não iremos conseguir.
Certamente a sociedade é muito excludente, e se dizia que de
alguma maneira, em algum momento, se eu não entendi mal, que
havia de se esperar também que a sociedade fosse mais inclusiva
para que a escola fosse mais inclusiva. Acredito que a escola tenha
uma função social de transformação da
sociedade. A escola não é reprodutora do sistema social
estabelecido. Obviamente a educação escolar tem a missão
de socializar as futuras gerações para que se insiram
na sociedade, mas numa perspectiva de transformar a sociedade. A abordagem
da UNESCO é, justamente que, à medida que consigamos
uma educação inclusiva, vamos alcançar sociedades
também mais inclusivas. Às vezes, temos medo das diferenças,
porque não estamos acostumados a conviver com elas. Não
podemos esperar que a sociedade seja inclusiva ou nunca faremos a
inclusão na educação. Acredito que a escola pode
contribuir para fazer sociedades mais inclusivas. Mas a educação,
por si só, também não vai resolver a inclusão
social; vai representar sim uma pequena parte, vai contribuir, mas
não pode cair sobre os ombros da escola, da educação
e dos professores a responsabilidade da inclusão social.
III
Passarei agora a falar das condições que possam favorecer
a construção de uma escola inclusiva. Como aponta, também,
Álvaro Marchesi, a inclusão educativa não está
resolvida em nenhuma parte do mundo. O que tenho visto é que
há mais inclusão nos países mais pobres, onde
há menos recursos, onde existem menos serviços paralelos,
onde há uma educação especial menos instalada.
Portanto, temos que partir do ponto de que a inclusão é
uma certa utopia, é um desafio ao futuro que temos que construir.
Veremos, em seguida, uma série de condições para
que as escolas se tornem inclusivas, algumas condições
favoráveis para desenvolver uma educação de qualidade
para atender à diversidade.
Mas antes, gostaria de apontar duas coisas: a primeira é que
existem muitas coincidências entre os estudos que têm
sido feitos de escolas eficazes para todos e as avaliações
e investigações que têm sido feitas sobre as condições
desejáveis para uma integração de sucesso. Logo,
existe muita coincidência, o que nos leva a perguntar se integrar
crianças com deficiência não requer coisas muito
diferentes do que requer uma escola que dê resposta à
diversidade em seu conjunto. A segunda questão que quero apontar
refere-se às condições. Não podemos esperar
que todas as condições existam para começar,
porque senão nunca começaremos. O que quero apontar
é que as condições que veremos a seguir fazem
parte do próprio processo: a inclusão é um processo
gradativo, que leva tempo, que é complexo, que tem que ser
construído aos poucos. Assim, as condições fazem
parte do próprio processo.
A primeira condição é a valorização
da diversidade como um elemento enriquecedor do desenvolvimento pessoal
e social. Acredito que a inclusão educativa não é,
em primeira instância, uma questão técnica ou,
como diria Nicola Cuomo, não é uma questão de
engenharia didático-pedagógica. É, em primeira
instância, uma opção ideológica, uma opção
de valores, uma opção de vida e, em definitivo, é
um sentimento. Penso que professores muito bem formados didaticamente,
se não têm uma atitude de respeito e valorização
em relação às diferenças, se não
têm um compromisso, não irão responder adequadamente
a essas diferenças; pelo contrário, um professor que
respeite as diferenças, que seja comprometido com elas, mesmo
que não esteja muito bem formado, responderá bem a elas,
porque depois a parte técnica vem quase por si só. Eu
acredito que o importante é a escola ou o sistema educativo
partir do ponto de que a Diversidade não é um problema,
mas pelo contrário, é uma oportunidade para nos enriquecer,
pessoal e socialmente, e para enriquecer o processo de ensino-aprendizagem.
Todos temos a experiência de que quando podemos compartilhar
com pessoas que têm diferentes experiências, opiniões,
pontos de vista e conhecimentos, aprendemos melhor. Se sempre nos
juntássemos aos que têm a mesma capacidade, opiniões
e pontos de vista, não cresceríamos.
Dessa forma, acredito que esta é uma premissa fundamental,
e acredito que é a primeira: uma atitude positiva, um compromisso
e uma valorização das diferenças individuais,
percebendo-as como uma oportunidade para aprender e não como
um problema a resolver ou um obstáculo que se nos apresenta.
É muito importante definir ações sustentadas
de sensibilização da sociedade no seu conjunto e da
comunidade escolar, em particular, porque quando não há
uma atitude favorável, não é má intenção,
é medo, às vezes, receio do desconhecido, todos nos
sentimos muito cômodos nos esquemas com os quais lidamos. As
mudanças são difíceis, gostamos que o novo que
chega se encaixe mais ou menos na estrutura na qual temos organizada
nossa visão de mundo. Portanto, acredito que as atitudes, às
vezes negativas, estão ligadas ao medo do desconhecido. Temos
que respeitar esses medos e compreendê-los, e devemos levá-los
em consideração e partir dali para construir o processo.
Os pais, muitas vezes, temem que suas crianças tenham dificuldades,
imaginam se vão servir de deboche ou se vão ser aceitas;
outros pais têm medo por seus filhos estarem com crianças
diferentes: "os meus vão aprender menos ou irão
mais devagar". Os professores da sala de aula comum ou da escola
comum têm medo de não serem capazes de dar respostas
a essas diferenças, porque temos tido a homogeneização
instalada na escola há tanto tempo que cada vez mais vamos
fixando diferenças. Faz pouco tempo, no Chile, em um instituto
secundarista, verificou-se a seguinte discriminação:
queriam expulsar alunos que tinham o cabelo comprido ou usavam brinco;
ou seja, a escola tem muitas formas de segregar e discriminar e isso
está tão instalado que requer uma mudança cultural
da educação e da escola, que levará muito tempo
para ser alcançada. As atitudes são um assunto a ser
considerado em dois níveis: o primeiro é o da aceitação;
o segundo - que é o importante - é da valorização.
Existem pessoas que aceitam as diferenças, mas não as
valorizam, ou não as consideram como algo que pode enriquecê-las.
E existem pessoas que as aceitam mas não se comprometem. A
idéia é chegar ao compromisso.
Uma segunda questão, que tem a ver com outra condição,
refere-se às políticas educacionais, os marcos legais
que favoreçam uma educação inclusiva em todas
as etapas educativas. Como também aponta Álvaro Marchesi,
estamos falando de uma transformação do conjunto do
sistema educativo, onde a diversidade não é um item
a mais, e sim o eixo central da educação comum. Portanto,
as políticas e os marcos legais, por si sós, não
asseguram o sucesso na prática. De fato, há rupturas
entre os marcos legais, as políticas e as práticas.
Os tempos são diferentes, os políticos têm pressa,
porque querem que as coisas se mantenham antes que mude o governo
e, às vezes, isso ocorre porque se está falando de transformações
que levam muito tempo. Então, às vezes, há rupturas
entre o discurso teórico, o legal e a prática. Às
vezes, também, ocorre que há escolas que estão
mais avançadas e, às vezes, são limitadas pelas
políticas ou pelos marcos legais. Eu acredito que o tema da
inclusão educativa implica apostar em uma política educativa
que assegure que a atenção à diversidade seja
o eixo central e que isso se verifique em todas as etapas educativas,
porque às vezes se diz: - Sim, a integração de
crianças com deficiência está muito bem na pré-escola,
mas não no segundo grau! Não. Estamos falando de uma
opção para a vida toda. Como diz o informe da UNESCO
para a educação para o século XXI, "aprender
a aprender, durante a vida toda, e de maneira inclusiva." Este
é outro tema muito importante: as políticas e os marcos
legais podem facilitar ou, às vezes, dificultar que isso seja
levado à prática na sala de aula e nas escolas.
Uma terceira condição é contar com currículos
amplos, equilibrados, flexíveis e abertos. Obviamente, no meu
país - a Espanha - começou-se a integração
antes da reforma educativa e partimos de um currículo muito
fechado; ainda assim, começou-se a integração.
Quero dizer que também não temos que esperar que todos
os currículos sejam abertos e flexíveis para começar
a ter uma educação para a diversidade. Logicamente,
quando se fez a reforma e se delineou um currículo aberto,
flexível, amplo e equilibrado, que considerava não somente
capacidade do tipo cognitivo ou conteúdos do tipo mais conceitual,
mas que considerava também conteúdos e capacidades relacionados
com o social, com o afetivo-emocional, etc; facilitou-se muito o processo
de integração. Acredito que é muito importante
contar com currículos, desenhos curriculares oficiais abertos
e flexíveis, mas não somente isso, porque se temos um
currículo aberto e flexível, que possa ser ajustado
à escola, aos alunos, etc, mas este currículo que, de
inicio, é baseado nos tipos de conhecimentos e capacidades,
também não será suficiente. Portanto, são
duas condições importantes.
Outra questão que queria apontar é o fato de que o currículo
comum deve ser o referencial da educação de todo criança,
esteja onde estiver. Ou seja, também tem que ser o currículo,
o referencial para as crianças escolarizadas em escolas especiais,
fazendo-se os ajustes pertinentes. Dessa maneira, asseguraremos uma
maior igualdade de oportunidades. Por isso, acredito que uma estratégia
que está se implantando em toda América Latina é
começar a eliminar os currículos para atraso mental,
para crianças cegas e surdas. Eu me pergunto: O que de diferente
têm que aprender essas crianças como cidadãos
futuros? Teremos que lhes dar ajuda e recursos especiais para lhes
ajudar a progredir nesse currículo comum até onde puderem
chegar, mas não aprendem de uma maneira muito diferente, nem
têm que aprender coisas muito diferentes dos outros alunos.
Outro ponto: esses programas que existem por deficiência não
são currículos, e sim programas reabilitadores. Portanto,
o currículo comum, com os ajustes e diversificações
necessários, deve ser o referencial da educação
de todo criança de um país onde estiver e seja qual
for sua condição social, cultural ou pessoal. E uma
última reflexão sobre o currículo: sinto que
não nos temos detido na analise do fato de que havia matérias
com o mesmo nível de importância. Acredito que a escola
ainda continua com matérias de primeira e de segunda. Queria
ressaltar que há tantas ciências, línguas ou matemática,
que esquecemos que há outro tipo de áreas curriculares
que são mais bem relacionadas com o desenvolvimento artístico,
estético, físico. E é, justamente, nelas que
muitos alunos têm sucesso e onde podem ter maior auto-estima.
Entretanto, essas matérias ou áreas curriculares continuam
sendo consideradas de menor importância ou de segunda categoria.
Uma quarta condição: a inclusão educativa é
um projeto de escola e não de professores isolados. É
preciso trabalhar no sentido de fazer projetos educativos institucionais
que incorporem a diversidade como eixo central da tomada de decisão.
Realmente a inclusão implica uma mudança cultural da
escola, e a escola é um cruzamento de culturas, a escola não
tem, a instituição educativa não tem somente
uma cultura, mas muitos cruzamentos de culturas. Portanto, isso não
é uma tarefa fácil, mas se queremos que as mudanças
sejam permanentes, tenham continuidade e sejam profundas, temos que
abordá-las conjuntamente e compartilhar certos critérios,
certas estratégias e certas condições que assegurem
a continuidade e a coerência.
Quero dar um exemplo relacionado com a integração, nesse
ponto. Em muitos paises a integração começa -
na América Latina especialmente - com professores voluntários
e depois vem a angústia de dizer: - E no ano que vem, quem
irá promovê-la? Acredito que "professores voluntários"
e "escolas voluntárias no seu conjunto" são
coisas distintas. Se o processo se inicia com um caráter voluntário,
é importante que seja a decisão da escola em seu conjunto
e não de professores isolados. Penso que esse é um assunto
fundamental, haja vista que aquelas escolas que têm um projeto
educativo elaborado de maneira consensual e conjunta são escolas
que não somente atendem melhor à diversidade e ao desenvolvimento
de seus alunos, mas também são as que mais crescem como
instituição. Trata-se do fato de que, também
na América Latina, estamos num momento em que a maioria dos
países tem currículos abertos, flexíveis, e há
uma possibilidade de que cada escola ajuste essas bases que dá
a administração educativa as características
sociais e culturais de seus alunos. Creio que em muitos países
da América Latina os projetos educativos institucionais estejam
caminhando. É importante frisar que o projeto institucional
não é um produto, na é algo que escrevemos em
três horas, ou em dois dias, porque o supervisor o solicitará.
O projeto educativo institucional, penso eu, é a desculpa para
sentarmos juntos a refletir como atendemos as diferenças, como
podemos ensinar melhor, etc. Portanto, trata-se de um processo e não
de um produto. E é um processo vivo, dinâmico e mutante.
Não é algo que façamos em três dias e entreguemos,
para depois não sabermos sequer o que havíamos decidido
ali.
Uma quinta condição - importantíssima - é
que uma educação inclusiva somente é possível
se os professores têm apoios. Faz-se necessário um equilíbrio
entre a pressão da mudança que se propõe e a
possibilidade real de alcançá-la. Há que se propor
mudanças, mas temos que ajudar os docentes para que possam
realizar essas mudanças. E a ajuda mais importante é
a colaboração que possam efetivar os docente entre si.
Não temos que esperar que seja sempre a administração
educativa ou o especialista que venha a dizer o que tem que ser feito.
Os professores são peritos no que fazem e, portanto, a ajuda
mútua entre docentes é uma estratégia fundamental
para se dar resposta à diversidade. Porque a gente não
sabe tudo: a gente tem de se juntar com outro para complementar o
que não sabe, ou para que o outro nos dê outro ponto
de vista. Acredito que há uma tradição muito
forte de isolamento dos docentes e de trabalho solitário. Eu
sei que estarão pensando: - Em que momento se juntam? Sei que
há muitos países em que há dois turnos, e em
que não há o momento para criar esses espaços.
Mas eu volto a política: se há uma política educativa
que aposta nisso, é preciso empenhar-se para que os professores
tenham as condições mínimas para se reunir, para
pensar juntos, etc. E o trabalho em colaboração implica
não somente os decente, implica também os pais. O trabalho
cooperativo implica, além desses elementos, um nível
de igualdade na relação, e uma complementação
nos conhecimentos, pontos de vista e perspectivas. No trabalho colaborativo,
ninguém é mais do que ninguém; o especialista
não é mais do que o docente. São iguais. Têm
conhecimentos diferentes, que juntos potencializam a resolução
dos problemas. Os professores não são mais do que os
pais: o nível de relação tem de ser o mesmo.
Temos que começar a valorizar mais os pais, e partir do que
eles abem, resgatando o conhecimento que têm de seus filhos.
Às vezes, adotamos uma atitude impositiva frente aos pais,
do que eles têm que fazer. Eles conhecem seus filhos e, portanto,
temos que levar em consideração o ponto de partida dos
pais. Por fim, a colaboração tem que se dar entre os
alunos. Dessa forma, estamos falando de uma escola colaborativa em
seu conjunto.
Outra condição, muito relacionada com a anterior, é
criar um bom clima na escola e na sala de aula. Todos sabemos que
os aspectos afetivos e emocionais são, às vezes, os
que mais incidência têm no aprendizado significativo por
parte da criança. Muitas vezes as crianças não
se sentem pessoas, não se sentem indivíduos particulares,
se sentem, às vezes, um número. Nesse sentido, eu acredito
que o tema de cuidar dos aspectos afetivos e emocionais é fundamental
para que a aprendizagem seja significativa, e não só
isso, para que o aluno se sinta bem na escola. Outro aspecto complicado
tem a ver com critérios e procedimentos flexíveis de
avaliação e promoção. É um dos
maiores desafios que temos. Existem reformas em andamento, inovadoras,
e que partem de uma concepção construtivista do ensino
e da aprendizagem, em outras palavras, de que cada pessoa faz um processo
particular de construção do conhecimento e aprendizagem,
partindo do que traz. Como conciliamos uma concepção
construtivista da aprendizagem e do ensino com uma avaliação
que afinal acaba sendo comum para todos? Como conciliamos respeitar
processo individual que cada criança segue para aprender e
ver que ajuda temos que lhe oferecer com critérios de avaliação
que todos têm que cumprir? Acredito que esse é um assunto
que não está verdadeiramente resolvido em nenhum país.
Devemos ser conscientes das contradições que temos,
e também devemos diferenciar avaliação, promoção
e certificação. São coisas diferentes, mas afinal
parece que as equiparamos. Acredito que na escola não temos
que avaliar tudo aquilo que a criança aprende ou tudo aquilo
que lhe ensinamos. Deve-se fazer uma seleção do que
é mais importante avaliar em relação à
promoção. Podemos avaliar na totalidade o processo de
ensino-aprendizagem, e depois podemos selecionar quais são
as aprendizagens realmente relevantes para a promoção.
Acredito que a promoção deva ser automática.
Vimos que a repetência não resolve o problema e complica
muito a educação. Eu li, faz pouco tempo, em um trabalho
do Brasil, que existe uma cultura forte da repetência - como
ocorre em muitos países - e que a repetência não
resolve nada, porque volta-se a fazer a mesma coisa, e vai-se afastando
do seu grupo de idade cronológica; por isso, no Brasil, existe
uma experiência interessante que é chamada de estudo
ou cursos de aceleração, o que nos leva a perguntar:
- Como fazer para que não exista um aluno de dez anos junto
a outro de seis? Se vamos fazer uma seleção de currículo,
vamos conseguir trabalhar de outra maneira, vamos fomentar sua auto-estima
para que volte, para que retorne logo ao grupo de sua faixa etária.
Acredito que esse assunto é um dos mais complicados, e temos
que ver que nisso a administração sequer pode ajudar
fazendo normas e leis que permitam uma maior flexibilidade da promoção
e que cada criança vá se promovendo com as adaptações
curriculares que requeira. Porque repetir de ano não resolve
o problema da criança. Pelo contrário, o acentua, compromete
sua auto-estima, etc., e eu acredito que traça um problema
grave ao sistema educativo como um todo.
A condição nove é ter, como também aponta
Álvaro Marchesi, uma série de recursos que apóiem
os professores. Não pode recair tudo no professor, nas suas
costas. Deve-se proporcionar a ele recursos humanos, financeiros e
materiais. Mas deve-se ser cuidadoso com isto. Nem sempre a resposta
a determinadas diferenças tem que ir junto com recursos de
caráter especializado. Não é uma associação
direta. Há muitas crianças com deficiências que
podem precisar de recursos por um tempo, mas depois não; contudo,
as escolas exigem que, no caso de existirem crianças com deficiência,
o recurso esteja ali o tempo todo, e nem sempre é necessário.
Então depois veremos se trata-se de uma escola inclusiva, teremos
que ter recursos para asa crianças com deficiência, para
as crianças de outra etnia ou cultura. As pessoas de Educação
Especial não podem resolver as necessidades de toda a diversidade.
O docente da sala comum tem de resolvê-las, com o apoio e a
ajuda de pessoas que tenham conhecimentos de caráter mais especializado.
Temos visto, também, que quando se inicia a integração,
em muitas escolas, reproduzindo o esquema de atenção
individual realizado na escola comum, retira-se a criança continuamente
da sala de aula para lhe dar apoio. O que ocorre? Primeiro, a criança
vai se distanciando do seu grupo; segundo, o professor da classe comum
não modifica sua prática, porque o problema está
continuamente saindo da sala. Então, o importante é
que esse docente comum tenha ferramentas, instrumentos, conhecimentos,
para dar resposta a essa diversidade, com ajuda de recursos humanos,
com materiais e com recursos financeiros. O desafio é conseguir
docentes que quebrem o esquema de homogeneidade e que realizem essa
passagem para a Diversidade.
Finalmente, a formação e a investigação.
Tudo o que estamos apontando é um desafio, um caminho para
o futuro que há que construir. E sabemos que, às vezes,
não temos as ferramentas, os conhecimentos necessários.
Portanto, todas essas novas exigências e desafios, que estabelece
a educação inclusiva, devem ser acompanhadas de processos
de formação sustentados. De nada serve fazer um curso
de cinco horas para dar o básico; deve haver uma formação
sustentada com o tempo. Já se viu que a formação
dirigida à escola como um todo é mais eficaz. Geralmente,
ocorre o seguinte: o professor muda de escola, e passa por várias.
Quando volta a sua escola, se encontra só: volta muito motivado
a fazer mudanças, mas se deixa envolver pela sala, não
podendo mudar muita coisa, porque os outros não estão
com esse pensamento. Então, é importante que a formação
se centralize na escola para que as necessidades reais dessa escola
- diferente de outras - sejam traçadas, de modo que a formação
esteja vinculada à construção do projeto educativo
institucional. Há escolas que estão fazendo experiências
muito interessantes e que não se conhecem. No momento, estou
fazendo um trabalho na UNESCO relativo a um teste de inovações
educativas. Constatei que há muito pouca informação
sobre inovação a partir das escolas. Acontece que as
escolas já têm muitas coisas interessantes que possam
compartilhar entre si. Pois, se temos as mesmas dificuldades, devemos
considerar o seguinte encaminhamento: - Como você a resolveu?
- Como nós temos resolvido a situação? - Como
podemos nos enriquecer mutuamente? Então, volto à idéia
de que valorizemos o que nossos colegas podem nos acrescentar, e não
esperemos sempre isso de fora.
E, em conclusão, isso implica uma transformação
considerável na formação inicial dos docentes,
que, às vezes, é o mais difícil de conseguir
também. Quando vamos subindo nos níveis de ensino, mais
difíceis, às vezes, são as mudanças. A
idéia é que a formação docente inicial
tem que dar instrumentos a todo docente para que atenda à diversidade
e que todos os docentes tenham um tronco de formação
comum, e que as especialidades, que também são necessárias,
sejam a posterior em relação a essa formação
comum.
Bom, estas seriam as condições, espero que não
se assustem, eu acredito que temos que pensar que é um caminho
a que percorrer, e há escolas que o estão fazendo, que
é possível - que não é fácil, mas
é possível - e, portanto, devemos trabalhar com otimismo,
porque, às vezes, somos muito negativos, vemos sempre o que
não temos e não enxergamos o que vamos conseguindo.
O importante é que há escolas fazendo a mudança
, mostrando que é possível. E, como dizia Antonio Machado,
"o caminho se fez ao andar". E se aprende fazendo. Acredito
que esse caminho seja muito mais fácil de percorrer, mais prazeroso
e rápido se o percorrermos juntos e nos ajudando uns aos outros.
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