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Dra. Maria Salete Fábio
Aranha*
Pós Graduação em Educação
UNESP-Marília
Introdução
A avaliação assume natureza e características
diferentes, em função das diferentes leituras filosófico-teóricas
que se assume no que se refere ao processo educacional.
Neste texto, parte-se do pressuposto que ensino e aprendizagem são
um processo complexo, de natureza bi-direcional própria e peculiar,
diferente dos elementos ( ensino E aprendizagem) que o constituem.
Isto significa que o processo ensino-aprendizagem produzido por uma
determinada relação professor-aluno será sempre
peculiar e complexo, diferente das características exclusivas
do ensinar ou do aprender do professor e aluno envolvidos. Assim,
o ensinar só pode ser compreendido, quando analisado à
luz da aprendizagem, enquanto que esta, da mesma forma, somente poderá
ser entendida quando analisada em suas múltiplas determinações,
sendo uma delas, o ensinar ao qual o aprendiz encontra-se submetido.
Em função de tal pressuposto é que se toma a
avaliação como processo compreensivo, não classificatório,
norteador essencial da prática pedagógica.
Para contextualizar e fundamentar tal posicionamento, entretanto,
faz-se necessário detalhar algumas idéias que constituem
o meio epistemológico em que ele se define e desenvolve.
Pensando
a Educação
Entende-se por Educação o processo formal de favorecimento,
ao aluno, do acesso e apreensão do saber historicamente construído
e sistematizado.
No decorrer da História da Humanidade o homem olhou para os
diferentes aspectos da realidade e investigou, buscando identificar
seus elementos constituintes e como se dão as relações
entre eles. Ao fazer isso, foi explicitando e sistematizando os princípios
e as leis que as regem. A organização sistemática
dessas informações foi constituindo as diversas áreas
do conhecimento, chamadas ciências, edifícios que configuram
verdadeiras linguagens. Assim, cada recorte da realidade pode hoje
ser lido através da linguagem da física, da linguagem
da química, da biologia, da matemática, da psicologia,
dentre outras, cada uma focalizando aspectos específicos e
diferenciados da natureza de cada fenômeno.
Retomando, então, a questão da Educação,
tem-se que esta detém, como seu principal objetivo, favorecer
a todos os cidadãos o acesso a esses conjuntos de conhecimento,
bem como o domínio deles, de forma a favorecer a melhor compreensão
do que está posto na realidade e em daí partindo, permitir
que se avance tanto na sua utilização para a melhoria
da qualidade de vida dos cidadãos, como avançar na produção
de novos conhecimentos.
A escola é o espaço institucional que tem como função
social promover a aquisição, a transmissão e
a ampliação desse saber historicamente acumulado, visando
a formação do indivíduo para a interpretação
fundamentada e crítica do mundo e da sociedade, ou seja, para
a instrumentalização de seu agir e pensar na qualificação
das relações sociais e do homem.
Embora não se dê exclusivamente na sala de aula, o processo
ensino-aprendizagem, objeto do trabalho escolar, se qualifica e diferencia
do ensino no cotidiano, pelas características, objetivos e
métodos próprios, bem como pela categoria de saber que
ela socializa. (Laranjeira, 1995).
Enquanto que a aprendizagem que se dá na trivialidade do cotidiano
é assistemática e produto do compartilhar não
planejado de conteúdos e significados entre parceiros sociais,
a que se espera favorecer em sala de aula deveria ser planejada e
de responsabilidade do professor, tanto na provocação
da curiosidade do aluno, como na mediação e acompanhamento
do processo do aprender.
A aula é, enfim, um espaço onde ocorre uma dada relação
ensino/aprendizagem, aquela na qual o professor tem o papel de autoridade,
por competência e responsabilidade profissional. Cabe a ele
buscar o conhecimento sobre o processo do aprender do aluno, organizar
o ensino em função desse conhecimento, reajustar suas
ações pedagógicas em função de
seus efeitos sobre a aprendizagem do aluno, enfim, coordenar o ensino,
mediando o processo de aprendizagem daquele que se encontra sob sua
responsabilidade profissional.
Tais considerações requerem que se aborde, a seguir,
a questão da relação ensino-aprendizagem, bem
como o papel do professor como mediador desse processo.
Pensando
sobre o processo ensino - aprendizagem
Fundamentados na leitura sócio-construtivista de desenvolvimento
humano, considera-se que cada indivíduo apresenta, a cada recorte
de sua história de desenvolvimento, um desenvolvimento real,
detectável a partir das operações que desenvolve
com autonomia (sem ajuda). A construção efetiva do conhecimento
só é possível no espaço interpessoal,
situação em que o professor, verificando o que o aluno
consegue produzir sozinho, leva-o, através de sua instigação
e mediação, a um passo além no processo de construção
do conhecimento.
"A posição que Vygotsky assume sobre a relação
desenvolvimento/aprendizagem está declarada no seu conceito
de zona de desenvolvimento proximal, através do qual, nos oferece
com magistral clareza, o que temos chamado de "desenho da aula",
uma vez que nos aponta os limites e possibilidades nos quais devemos
apoiar nossa tarefa de articulação / mediação.
Situa o campo da postura do social para com o sujeito, considerando
uma esfera de desenvolvimento real - a que comporta o que o sujeito
pode fazer sozinho - como ponto de referência para a esfera
de desenvolvimento potencial - a que delimita sua possibilidade de
atuar com ajuda - e, considera, então, o espaço compreendido
entre as duas esferas, a zona de desenvolvimento proximal. Com isso
permite que, nós professores, apreendamos também o que
não é aula, ou seja não estaremos cumprindo nosso
papel com relação ao aluno, nem se estivermos trabalhando
no interior da primeira esfera ( por exemplo, quando utilizarmos a
aula para fazê-lo retornar ao concreto palpável, em realidades
que já lhe são conhecidas), nem sequer se o fizermos
no exterior da segunda esfera (por exemplo, quando propormos que apliquem
teses gerais a casos específicos, em situações
nas quais a construção de conceitos ainda não
está garantida). Contudo, a aula estará bem posta quando
a alocarmos entre ambas, ou seja, se não estivermos a subestimar,
nem a superestimar a capacidade real do sujeito". (Laranjeira.
1995).
Caberia ao professor, assim, planejar e reajustar suas ações
pedagógicas em função de parâmetros estabelecidos
pelo ponto de partida do aluno e pelas peculiaridades que apresenta
em seu processo de apreensão e construção do
conhecimento.
Pensando
a Educação Especial
Assim concebendo a Educação e o processo ensino - aprendizagem,
constata-se que todo processo educacional é especial, enquanto
peculiar e norteado pelas características e as ações
dos parceiros específicos que se encontram na relação.
O que seria, então, que se chama e se atribui à Educação
Especial?
Entende-se, aqui, por Educação Especial, a modalidade
educacional que se caracteriza pela utilização de instrumental
especial, pelo oferecimento mais amiúde de suporte individualizado
no processo de aprendizagem do aluno, pela estruturação
das tarefas educacionais em passos mais atomizados do que o usualmente
utilizado nas salas do ensino comum.
Conquanto em nossa realidade a Educação Especial encontre-se
ainda praticamente confinada às salas e escolas especiais,
segredadas, ela não tem necessariamente que se dar desta forma.
Em outras realidades, o ensino especial se dá dentro da sala
de aula comum, a qual conta com o professor regular e com o educador
especial no acompanhamento de seus alunos.
Embora muito se poderia discutir a respeito das possibilidades de
modelos para a Educação Especial no país, pretende-se,
neste texto, ater-se à discussão de como ela se configura
em nossa realidade.
A Educação Especial tem se caracterizado pelo agrupamento,
em local fisicamente segregado, de crianças que configuram
problemas para o professor da classe regular, crianças sindrômicas,
com deficiências físicas ou sensoriais, sendo viabilizada
nas classes especiais.
As classes especiais distinguem-se das classes regulares pelo número
reduzido de alunos por sala, por professores com escolaridade especializada,
por contar com alguma disponibilidade de recursos e materiais didáticos
e pedagógicos peculiares para necessidades específicas,
além de pela localização disprivilegiada no ambiente
escolar, pela atitude preconceituosa e desqualificadora dos demais
membros da comunidade escolar, pela postura interna de assistencialismo
e pela ausência de cobrança de resultados.
É interessante ainda lembrar que crianças com limitações
e déficits severos, população a quem a Educação
Especial realmente deveria servir, dificilmente são encontradas
nas salas especiais, permanecendo ainda em estado de absoluta exclusão
educacional e social.
Nem todos os deficientes auditivos necessitam do ensino especial.
Da mesma foram, os deficientes visuais. Cuidados na comunicação,
a utilização de instrumental especial (máquina
Braille, soroban, reglete), na maioria das vezes favorece a participação
do aluno na classe comum com todos os ganhos que a convivência
diversificada promove.
No que se refere à deficiência mental, quantos dos casos
encontrados nas classes especiais não são unicamente
produto de um sistema, que por sua natureza e estrutura, impede a
atenção individual do professor às peculiaridades
de necessidades processuais do aluno?
Ainda que supondo que todas essas crianças fossem realmente
melhor servidas e mediadas em seu processo de construção
do conhecimento (acadêmico e funcional) na classe especial,
sabe-se que estariam limitadas no seu processo de apreensão
das práticas sociais, bem como da instrumentalização
necessária para delas participar.
Dentre as vulgarmente chamadas "crianças-problemas"
constata-se, em geral, alunos que se distanciam dos padrões
de disciplina esperados pelo professor, alunos que não respondem
às iniciativas pedagógicas rotineiras, alunos que apresentam
padrões hiperativos de comportamento, bem como dificuldades
de atenção e concentração e/ou lentidão
de resposta.
Despreparados para lidar com a natureza processual diversificada,
o professor da classe regular geralmente encaminha esse aluno para
um diagnóstico externo, na expectativa de "encontrar"
uma deficiência que justifique os problemas encontrados e autorize
seu encaminhamento para a classe especial e seu ingresso nela.
A avaliação externa, em geral, descreve unilateralmente
características do aluno, atendendo, nesse aspecto, às
expectativas do professor e assim, tranquilizando-o e formalizando
institucionalmente razões aparentemente válidas para
o deslocamento desse aluno para o ensino especial, de onde dificilmente
sairá.
Tais reflexões indicam a urgente necessidade de se rever a
prática de avaliação e encaminhamento de crianças
para as salas especiais, de forma que o ensino regular efetivamente
execute sua tarefa de acompanhar e viabilizar processualmente a aprendizagem
dos alunos e que a Educação Especial possa realmente
vir a cumprir seu papel de mediar a aprendizagem daqueles que serão
atendidos em sua necessidade de um acompanhamento individualizado,
passo a passo, e que requerem de instrumental especial inviável,
nas atuais circunstâncias, de ser viabilizado na sala comum.
Para tanto, o educador precisa ter o domínio do conhecimento
que lhe cabe socializar, ter o conhecimento e o domínio da
Didática, ter conhecimento e domínio sobre como se dá
a aprendizagem e saber utilizar tais conhecimentos na investigação
e análise das necessidades de cada um de seus alunos.
O ideal será que todo educador tenha formação
e instrumentalização necessária para realizar
tal tarefa, seja qual for a modalidade estrutural de Educação
em que estiver inserido, mesmo porque somente então poderá
ser realmente um educador. Para tanto, necessita de apoio e suporte
técnico - científico para que possa cumprir com seu
papel, interrompendo a avalanche de encaminhamentos equivocados e
desnecessários para as classes especiais .
Por sua vez, que o educador em atuação no ensino especial
possa se manifestar em relação aos encaminhamentos inadequados
efetivados, que participe das atividades e ações do
sistema em igualdade de oportunidades e de condições
com os demais professores da rede de ensino, que possa obter o suporte
técnico - científico de que necessita e atue sempre
na direção de viabilizar a aprendizagem dos que necessitam
de atenção especial, favorecendo-lhes a integração
no sistema regular.
Pensando
sobre o fracasso escolar
A discussão do encaminhamento desnecessário, indevido
e desnecessário de crianças para o ensino especial nos
remete à questão do fracasso escolar, foco cada vez
mais nítido de preocupação da sociedade brasileira,
tanto por parte dos usuários do sistema público educacional,
como por parte de seus servidores.
Embora alvos explícitos de ações governamentais,
os índices de evasão e de exclusão continuam
sendo um indicativo real e alarmante de dificuldades no processo ensino-aprendizagem,
pondo em risco a própria consecução da missão
da escola, ou no mínimo, estreitando consideravelmente os limites
de sua abrangência.
Continuam freqüentes, tanto por parte de professores do ensino
fundamental como do ensino especial, as queixas e os pedidos de orientação
sobre como enfrentar os problemas do processo ensino-aprendizagem
encontrados na sala de aula.
Assim, este fenômeno vem sendo, já há anos, alvo
de investigação científica, tanto com o objetivo
de compreendê-lo, como de identificar estratégias de
intervenção.
De natureza complexa, irredutível a uma causa única,
o fracasso escolar guarda em sua multideterminação a
dificuldade de seu enfrentamento.
As dificuldades da Saúde Pública em garantir
atenção integral à população infantil,
necessária e prioritária para qualquer sistema comprometido
com seu próprio futuro, contribuem com a manutenção
de altos índices de mortalidade infantil, mantendo em condições
de risco as crianças que sobrevivem (precárias condições
de nutrição e saúde).
As dificuldades econômicas e de inserção no
mercado de trabalho determinam a existência de uma significativa
parcela da população, que busca a sobrevivência
em condições de baixo poder aquisitivo, produto e gerador
de inúmeros problemas sociais (precárias condições
de habitação, lazer, educação, trabalho
infantil, etc...). Assim, muitas vezes, a situação sócio-econômica
provoca a entrada prematura e mesmo ilegal da criança no mercado
de trabalho, movida pela necessidade de completar o orçamento
familiar. Nestas condições, freqüentemente fica
difícil para a criança conciliar estudo e trabalho e
quando o faz, diferencia-se de outros que não enfrentam a mesma
realidade de vida.
Tem-se, também, a própria organização
do sistema educacional público que, a título de
disponibilizar a educação para todos, permite a formação
de classes com alto número de alunos (mais de 50, às
vezes), salas multi-seriadas (encontrando-se, inclusive, classes cujos
professores cursaram até 2ª série, ministrando
aulas para 1ª a 4ª séries, como acontece em alguns
estados do Norte e Nordeste), o que, na verdade, pode prejudicar ou
mesmo inviabilizar qualquer particularização do ensino.
A utilização de livros didáticos que privilegiam
um pequeno recorte da realidade sócio-cultural, tomando
os valores e a leitura da classe dominante como a representação
do "real", do correto e do adequado, faz do conteúdo
abordado, muitas vezes, conjuntos totalmente destituídos de
significado para a maioria das crianças que freqüentam
a escola pública. O ensino a serviço dos padrões
culturais de classes sócio-econômicas privilegiadas,
em detrimento da criança de classe popular pode conduzir a
sua segregação e exclusão do sistema educacional,
através das dificuldades que impõe à apreensão
peculiar do conhecimento que caracteriza o processo de aprendizagem.
O próprio desconhecimento dos professores sobre o processo
de construção do conhecimento e seu despreparo para
o atendimento das peculiaridades individuais no referido processo
constitui-se também fator determinante desse fenômeno.
A criança carente não difere das demais em habilidades
cognitivas básicas, nem em termos funcionais (processo de aprendizagem),
mas difere, sim, nos padrões culturais, de aprendizagem e de
motivação, bem como na relação com a cultura
dominante. Ao se definir pela reprodução dessa cultura,
a escola ignora, desrespeita e penaliza os cidadãos de camadas
menos favorecidas, constituindo-se, assim, mais um fator de explicação
para muitos casos de baixo nível de aquisição
e de desempenho da criança em sala de aula.
Por outro lado, a vida em ambiente que restringe a exposição
da criança à diversidade e à complexidade de
informações e oportunidades disponíveis às
crianças da classe dominante, limita e impede seu conhecimento
e compreensão crítica da realidade e das relações
sociais que a constituem, diferenciando-a desvantajosamente de seus
demais parceiros sociais.
Como já se discutiu anteriormente, a escola tem um papel fundamental,
mas quando o ensino oferecido encontra-se distante dos reais problemas
e necessidades das crianças e de suas famílias, seu
efeito pode ser o crescente desinteresse da criança, afastando-a
da escola, ou determinando o fracasso escolar e sua gradativa exclusão.
Tais fatores podem, por um lado, acarretar atrasos e comprometimentos
no desenvolvimento global da criança. Por outro, podem indicar
um ensino muitas vezes deficitário, acrítico, despersonalizado,
massificado, que embora aparentemente democrático e disponível
para todos, não garante a igualdade de condições,
fator essencial para que as oportunidades postas possam ser "igualmente"
acessadas.
O conjunto de tais variáveis, aliado a outras aqui não
mencionadas, focaliza assim a criança que, na relação
com a realidade sócio-cultural, é gradativamente excluída
das diversas instâncias do sistema social, incluindo o educacional.
Isto posto, considera-se importante que, ao se considerar a questão
do fracasso escolar, não se ignore as condições
de saúde física e mental da criança, produzidas
pelas carências sociais e culturais, bem os diferentes determinantes
situacionais, escolares e extra-escolares, que possam estar convergindo
em sua produção
Embora já se saiba hoje, entretanto, que as principais causas
do fracasso escolar não se encontram necessária e exclusivamente
na criança, mas sim, são produzidas em suas "histórias
escolares, nos mecanismos institucionais, nas relações
cotidianas que perpassam o dia a dia das escolas públicas"
(Machado 1996), a prática diagnóstica continua se caracterizando
por "focalizar seu olhar na criança encaminhada, culpabilizando-a
pelo seu fracasso" (Machado 1996).
Pensando,
então a Avaliação
Primeiramente faz-se importante explicar que, ao se falar sobre Avaliação,
reporta-se ao processo que tem como função primordial
verificar se e quais objetivos pedagógicos estão sendo
alcançados, identificar possíveis problemas na relação
ensino - aprendizagem e detectar aspectos dessa relação
que necessitam re-direcionamento.
Além de processo, o que implica em seu desenvolvimento ao longo
tempo, é essencial que seja contínuo. De caráter
compreensivo e não classificatório, exige a análise
bidirecional da produção da díade professor -
aluno, ou seja, de como um afeta o outro, contextualizados no conteúdo
- alvo, na sala de aula (políade), na instituição
escolar (com suas peculiaridades físicas, econômicas,
políticas, administrativas, pessoais) e no próprio sistema
educacional mais amplo.
Tal processo favorece ao professor, que detém a responsabilidade
do ensinar, a identificação das necessidades do aluno
e das direções às quais deve encaminhar as mudanças
de sua ação pedagógica.
É atribuição do professor pensar sobre o pensar
do aluno, ou seja, desenvolver suas ações pedagógicas
constantemente atento aos seus efeitos no aluno, peculiar em sua subjetividade
e em seu processo de construção do conhecimento.
É também sua atribuição ensinar pesquisando,
ou seja, redirecionar sua prática em função dos
dados constatados sobre o funcionamento do aluno.
Não é entretanto esta, a prática de avaliação
rotineira em nossa realidade educacional. De maneira geral, as avaliações
realizadas em sala de aula têm como objetivo identificar erros
e acertos do aluno, servindo a funções classificatórias
que penalizam exatamente aquelas crianças que mais necessitam
de ajustes e re-direcionamentos na relação ensino -
aprendizagem .
Crianças cujo desempenho, neste raciocínio quantitativo
e classificatório, mostra-se insuficiente, ao não serem
atendidas em suas necessidades e respeitadas em suas particularidades,
tendem a se distanciar cada vez mais do desempenho "esperado"
pelo professor, sendo concretamente levada a um gradativo processo
de exclusão.
O próximo passo, conseqüência natural desta leitura
equivocada do processo educacional e do papel do professor, é
o encaminhamento da criança para avaliações psicológicas
externas, providência fundamentada na idéia de que ela
é a única depositária de seus próprios
problemas.
A literatura tem demostrado já há longo tempo, a inoperância
dessas avaliações, rotineiras em nosso sistema de ensino,
o que se torna mais grave quando se constata que seus resultados passam
a funcionar como principal norteador do espaço de escolaridade
que vai determinar o resto da vida escolar e social do aluno.
Uma grande crítica ao processo de avaliação externa,
tal como tem se configurado em inúmeros casos de nossa realidade
e que vem se somar à critica anteriormente feita à prática
atual de avaliação em sala de aula, refere-se ao fato
desta se fundamentar principalmente na aplicação de
testes psicométricos, geralmente desenvolvidos em outros países,
que tomam como parâmetros populações que vivem
em contextos sócio - culturais absolutamente diferentes do
nosso, sem padronização para a população
brasileira. Resultados obtidos por instrumentos desta natureza, na
verdade só mostram qual a posição percentual
em que um determinado aluno brasileiro se encontra, quando comparado
com cidadãos de outro país. Para ilustrar esta crítica,
acredita-se ser interessante dissertar um pouco sobre esses testes.
Em geral, são constituídos por diferentes provas, que
solicitam um determinado desempenho do aluno. Cada teste tem um gabarito,
que explica qual seria a resposta considerada correta. Após
o aluno ter respondido ao solicitado no teste, o avaliador marca as
respostas corretas e as erradas, norteado pelo gabarito. Em seguida,
tabula-se o número de respostas corretas e reporta-se à
tabela de percentis, buscando a identificação do patamar
no qual o aluno em questão se encontra, a partir do número
de respostas corretas que apresentou. Deve-se atentar para o fato
de que e a população com a qual o aluno é comparado,
é constituída por um grupo - parâmetro de sujeitos,
em geral americanos, que vivia em um determinado estado nos Estados
Unidos, no ano em que o teste foi construído e a partir do
qual ele foi padronizado. O resultado final indica, na realidade,
que quando comparado ao grupo de alunos da série x, escola
y, estado m, este aluno brasileiro se encontra na posição
k, que corresponde ao quociente de inteligência z. Ora, sabe-se
que realidades sócio - culturais diferentes favorecem a construção
de conhecimentos diferenciados! E sabe-se também, que ter conhecimentos
diferenciados não significa necessariamente um funcionamento
mental deficitário.
Para ilustrar, pode-se criar um exemplo que seria engraçado
, se não fosse tão dramático em seu efeito. Ao
passar por uma dessas avaliações, um aluno deparou-se
com a questão "O que é a esmeralda?" O aluno,
cuja única Esmeralda que conhecia era sua mãe, assim
o respondeu, tendo obtido um X (errado) para sua resposta. A somatória
de erros deste tipo é que pode estar levando à identificação
tão freqüente de deficiências no aluno, justificando
de forma equivocada seu encaminhamento (muitas vezes desnecessário)
para uma classe especial!
Tais críticas, entretanto, seriam absolutamente inócuas,
se não levassem a um repensar do processo de avaliação,
contextualizado no espaço educacional. E é nesta direção
que se pretende, agora , encaminhar esta reflexão.
A avaliação da aprendizagem é parte integrante
de todo currículo cujo conceito manifesta, implicitamente,
uma concepção de Educação. Segundo Silveira
Filho (1981) "... toda proposta curricular contém, mesmo
que de forma subjacente nas suas entrelinhas, um projeto de homem
e um projeto de sociedade" (p.105).
A escolha de critérios e de instrumentos que fundamenta a avaliação
de um aluno reflete, em última instância, o homem que
se pretende formar.
Tyler e Bloom ( ) defendem um paradigma teórico - linear de
currículo. Pretendendo garantir a eficiência pedagógica,
na verdade sua tese encaminha-se para uma busca de medida objetiva
do rendimento escolar dos alunos, sua classificação
no grupo e na escola consequentemente, para sua seleção
social.
Subjacente a essa prática de currículo e de avaliação
da aprendizagem está a visão do mundo industrial, na
qual o homem-povo não passa de mero instrumento de produção,
deve simplesmente complementar a máquina, enquanto que o homem-dominante,
ou o homem-elite, deve ser considerado como o melhor, o mais capaz,
aquele que pode determinar a agir sobre a vida dos outros.
Tal concepção de currículo pretende garantir
o ensino daquilo que se julga necessário; para tanto, traçam-se
objetivos, definem-se conteúdos a serem ensinados, transmitidos,
organizam-se estratégias metodológicas de ensino e de
avaliação, buscando assegurar-se de que referidos objetivos
foram alcançados. Segundo Tyler, a "avaliação
por objetivos" deve medir se os objetivos educacionais foram
ou não alcançados. A "avaliação da
aprendizagem", na proposta de Tyler, "está integrada
a seu modelo para elaboração de currículo, que
assume essencialmente um caráter de controle do planejamento,
analogamente ao que ocorre no processo de produção industrial"
(Saul, 1988, p.27).
Bloom ( ) também assume uma visão positivista de ensino
e consequentemente, de avaliação, relacionando-a diretamente
com os objetivos curriculares.
Na realidade, tal concepção de currículo e de
avaliação elege determinados conteúdos, em função
do homem que se objetiva formar e a avaliação busca,
verificar se e quantos desses objetivos foram alcançados. Configurada
em provas e exames, serve principalmente a funções classificatórias,
prática que veladamente favorece a construção
da crença de que existem cidadãos melhores e piores,
em nível e natureza. Esta é a maior perversidade de
tal sistema: a de tornar corriqueira e generalizada uma prática
que afeta a construção da leitura da realidade, pelo
aluno, na direção de ter como "natural" a
classificação, a hierarquização e a exclusão
de cidadãos.
Em geral, as pessoas não têm clareza de que, ao tomar
determinadas atitudes avaliatórias, estão contribuindo
para a formação de pessoas passivas, conformistas e
acríticas, conservando, assim, as formas de dominação
social. Na verdade, tais micropoderes, não desvelados, são
mais eficientes que outros, explicitamente colocados socialmente.
Daí a importância de se ter uma visão crítica
sobre a que se presta a avaliação e de se conhecer a
natureza epistemológica do método de avaliação
empregado.
Ora, se a Educação tem como objeto a socialização
dos conhecimentos historicamente construídos e sistematizados,
bem como a formação de cidadãos conscientes,
ativos e participativos, tal sistema perde a significação.
O questionamento do modelo mecanicista e a visão da avaliação
da aprendizagem como um problema eminentemente técnico, tem
em Kliebard ( ) um excelente argumentador. Ele aponta para o reducionismo
da noção simplista de avaliação como sinônimo
de medida, em que se corre o risco de avaliar o não relevante
e deixar de lado aspectos significativos que lhe escapam ao crivo.
"Pudemos perceber o caminhar de uma concepção tecnicista,
onde avaliar significa medir, atribuir nota e predizer, para um concepção
sócio - política, em que a avaliação é
vista em um contexto muito mais amplo, sócio - cultural, historicamente
situada, auto - construída, transformadora e emancipadora"
(pp. 10-12).
Nesta, troca-se dados exclusivamente quantitativos por outros de maior
significação, quais sejam os que desvelam a caracterização
contextualizada do aluno em seu processo de aprendizagem, situando-o
pedagogicamente como sujeito interativo de um processo de aquisição
e de produção do conhecimento e da cultura.
Não se trata, neste posicionamento, de se abrir mão
do rigor ao avaliar. Na verdade, este processo requer um rigor
maior, tanto quanto clareza nas intenções e no modo
de avaliar. Requer a verificação do que foi apreendido
pelo aluno, de como se dá o seu pensar, de quais relações
estabelece entre eventos, de como estabelece tais relações,
bem como requer a identificação de "o que"
e "como" o professor está ensinando, quais intervenções
e/ou mudanças devem ocorrer nas estratégias pedagógicas
adotadas. Neste processo, torna-se essencial OUVIR o aluno, na busca
de compreensão sobre o que ele pensa e sobre que hipóteses
ele formula acerca de seus acertos e erros. É essencial BUSCAR
CONHECER qual é o seu nível de desenvolvimento e de
domínio de pré-requisitos referentes a cada conteúdo
trabalhado. É essencial que o professor PENSE a respeito dessa
caracterização do aluno e de como a considera no planejamento
e na execução de suas ações pedagógicas.
A análise acerca dos erros e acertos tanto do aluno quanto
das estratégias adotadas pelo professor permite desvelar o
processo de construção de conhecimento. Não faz
sentido, portanto, ser uma prática unilateral. Professor e
aluno precisam estar juntos nessa análise, onde não
se trocará a pretensa objetividade pela subjetividade, mas
sim, buscar-se-á a compreensão crítica de como
uma se relaciona com a outra. Analisar criticamente a qualidade da
avaliação significa refletir interativamente sobre a
objetividade e a subjetividade nela contidas.
Nesta perspectiva, a avaliação só toma sentido
quando deixa de ser medida linear, estática e adquire a perspectiva
da busca de compreensão do indivíduo que aprende e se
desenvolve, e do próprio processo de aquisição,
construção do conhecimento, de forma contextualizada.
A avaliação compreensiva, enfim, é processual,
o que implica em desenvolvimento ao longo do tempo e é contínua.
Exige a análise bidirecional da relação professor-aluno,
na busca da compreensão de como um age com outro, de como é
que um afeta o outro, dentro, de um contexto da sala de aula, da escola
e da realidade sócio-cultural desses agentes.
É atribuição do professor pensar sobre o pensar
do aluno, ou seja, desenvolver suas ações pedagógicas
constantemente atento aos seus efeitos no processo de aprendizagem
do aluno, peculiar em sua subjetividade e em seu processo de construção
do conhecimento.
É também sua atribuição ensinar pesquisando:
ao atuar, analisar os efeitos de sua atuação no processo
de aprendizagem do aluno, redirecionando sua prática, em função
dos dados então constatados.
Somente assim se pode redirecionar a avaliação, no sentido
de fazer dela um processo efetivo de diagnóstico pedagógico,
compreensivo e sinalizador dos necessários ajustes.
*
Doutorado em Psicologia Experimental pelo I.P.U.S.P., 1986-1991. Teve
como Orientadora a Profa. Dra. Ana Maria Almeida Carvalho e defendeu
tese intitulada "A interação social e o desenvolvimento
de relações sociais do deficiente, em ambiente integrado".
Pós-Doutorado, na Southern Illinois University at Carbondale,
Illinois. Área de Reabilitação Profissional/Treinamento
de Pessoal/Formação Continuada.
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