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O
deficiente mental, como qualquer outro indivíduo, tem necessidade
de expressar seus sentimentos de modo próprio e intransferível. A
repressão da sexualidade, nestes indivíduos, pode alterar seu equilíbrio
interno, diminuindo as possibilidades de se tornar um ser psiquicamente
integral. Por outro lado, quando bem encaminhada, a sexualidade melhora
o desenvolvimento afetivo, facilitando a capacidade de se relacionar,
melhorando a auto-estima e a adequação à sociedade.
A discussão do tema sexualidade em nossa cultura vem acompanhada de
preconceito e discriminação. Quando o tema passa a ser sexualidade
no deficiente mental, o preconceito e a discriminação são intensificados
e geram polêmica quanto às diferentes formas de abordá-lo, tanto com
os próprios adolescentes, quanto com suas famílias e na escola.
É importante lembrar que a sexualidade é uma função natural, existente
em todos os indivíduos. Pode-se expressar no seu componente afetivo,
erótico ou afetivo-erótico.
Master e Johnson apontam a importância de reconhecer que nem todas
as pessoas deficientes são semelhantes em suas capacidades de aprendizado
e independência, estabilidade emocional e habilidade social.
Apesar das diferenças entre os deficientes, quase todos são capazes
de aprender a desenvolver algum nível de habilidade social e conhecimento
sexual. Isso pode incluir habilidade para diferenciar comportamento
apropriado e não apropriado e para desenvolver um senso de responsabilidade
de cuidados pessoais e relacionamento com os outros.
A melhora dos cuidados de saúde e o avanço social que as pessoas com
deficiência mental vêm alcançando, nas últimas décadas, têm sido muito
grande. Atualmente, por meio do processo de inclusão social, os deficientes
mentais leves e moderados são capazes de viver integrados na comunidade
e, portanto, expostos a riscos, liberdades e responsabilidades. Essas
pessoas, durante a adolescência, devem conhecer as transformações
físicas e sociais que ocorrem neste período particular de vida.
Blum discute algumas das crenças mais comuns, relacionadas à sexualidade
e deficiência:
Crença 1: Jovens com deficiência não são sexualmente ativos.
Embora alguns adolescentes, com deficiência profunda, possam ser menos
aptos que seus pares para serem sexualmente ativos, a crença é infundada,
pois não se deve assumir que a condição de deficiência por si só,
preveja o comportamento sexual.
Crença 2: As aspirações sociais e sexuais de pessoas com deficiência
são diferentes dos seus pares.
Apesar do isolamento social que muitos deficientes vivenciam, estudos
demonstram que estes jovens gostariam de ter relações sexuais, de
casar e de ter filhos. Na verdade, o que ocorre é que essas pessoas
têm menos oportunidades de explorar alguma relação com seus semelhantes,
o que dificulta o alcance de suas aspirações.
Crença 3: Problemas quanto à expressão sexual do deficiente ocorrem
em função de sua deficiência.
Estudos demonstram que problemas físicos e mentais têm menor influência
sobre a expressão sexual do deficiente do que sua integração social.
Os deficientes têm maior possibilidade do que os jovens "normais"
de ficar isolados da sociedade. Se a expressão sexual ocorre num contexto
social, então o isolamento tem, como conseqüência, a incapacidade
do deficiente em aprender e desenvolver habilidades sociais. A conduta
sexual é aprendida, formada e reforçada por fatores ambientais. Os
ambientes integrados oferecem maiores probabilidades de reforçar condutas
integradas.
Crença 4: Pais de adolescentes com deficiência proporcionam suficiente
educação sexual para seus filhos.
Uma das conseqüências do isolamento social, para estes jovens, é que
eles recebem menos informações sobre sexualidade, reprodução, contracepção
e prevenção de DST e AIDS. Estudos mostram que a maioria dos jovens
deficientes nunca recebeu educação sexual.
Crença 5: Jovens com deficiências são sexualmente vulneráveis a
assédios sexuais.
Essa preocupação sobre a vulnerabilidade de adolescentes deficientes
parece ter fundamento. Portanto, o médico que trabalha com esses jovens
deve discutir essas preocupações com eles e com seus pais e não esperar
que os pais expressem esses receios. Para alguns adolescentes, apenas
a educação sexual será suficiente. Para outros, precisará ser complementado
com contracepção.
Por tudo isso, fica claro que, desde muito cedo, esses adolescentes
necessitam conhecer atitudes saudáveis em relação ao seu corpo e às
funções desse corpo. Qualquer que possa ser o interesse ou o conhecimento
sexual desses jovens, eles devem entender tudo o que for possível
sobre sexualidade. Se a eles é oferecida a vantagem da integração,
também devem ser orientados em relação a habilidades e atitudes de
comportamento social apropriada.
*Sobre a autora: Médica pediatra, especialista em adolescentes
e presidente da ADID-Associação para o Desenvolvimento Integral do
Down (rua Bento de Andrade, 289, 04503-011, São Paulo, SP, Tel: (11)
3885-7854, www.adid.com.br,
adid@uniemp.br).
Sobre o texto: Este texto foi originalmente publicado no Número
9, Ano 2, do jornal DESAFIO, da ADID.
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